Dennys Xavier na Crusoé: A perplexidade é só o começo
Escândalos recorrentes no Brasil nos impelem a reconstruir os critérios pelos quais as respostas podem voltar a fazer sentido
Certas palavras não descrevem apenas estados mentais, mas situações históricas inteiras. Aporia é uma delas.
Trata-se de um daqueles termos em que a língua grega antiga preservou, com rara precisão, uma experiência espiritual profunda: a consciência de estar diante de um impasse cuja solução não depende apenas de informação adicional, mas de uma reconfiguração do próprio horizonte de compreensão.
A palavra ἀπορία (aporía) nasce da junção do prefixo privativo a- com póros.
Póros, em grego, significa passagem, travessia, recurso, meio de acesso, expediente, via possível entre obstáculos, saída (transpiramos pelos poros!).
Em Homero, o termo aparece ligado à ideia de caminho navegável, de rota praticável no mar incerto. Nos filósofos, passa a designar também o expediente intelectual que permite sair de uma dificuldade argumentativa.
Assim, aporía é … perplexidade.
Não se trata apenas de ignorância pura e simples. Trata-se mais da percepção de que os caminhos disponíveis deixaram de conduzir adiante.
É por isso que a tradição socrática faz da aporia um método, e não um acidente. Nos primeiros diálogos platônicos, aqueles que marcam o início do pensamento do ateniense, como o Laches e o Eutífron, o percurso da investigação conduz repetidamente a esse ponto de suspensão em que as definições se desfazem.
As convicções herdadas revelam-se inconsistentes e o interlocutor percebe que aquilo que julgava saber era apenas opinião.
Sócrates, personagem/protagonista daqueles diálogos, não oferece respostas finais. Ele produz deslocamentos de consciência escorados no reconhecimento de que não se sabe…
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