Crusoé: “Lula nunca admitiu qualquer concorrência”
Paulo de Tarso Venceslau, ex-secretário de prefeituras petistas, diz que o atual presidente sempre montou "máquinas" com aliados, como o Clube do Mé
Paulo de Tarso Venceslau (foto), hoje com 82 anos, conheceu Lula nos primeiros anos do sindicalismo.
Quando o PT venceu as primeiras eleições para prefeituras, Venceslau foi trabalhar em Campinas e em São José dos Campos como secretário de Finanças.
Pouco depois, ele denunciou um esquema em que uma consultoria, a CPEM, do irmão do advogado Roberto Teixeira, fechava contratos sem licitação com as prefeituras.
Lula, que morava na casa de Roberto Teixeira, não fez nada para acabar com o esquema.
Nos anos seguintes, Roberto Teixeira negou ter participado de qualquer esquema de arrecadação de dinheiro junto a prefeituras administradas pelo PT: “Nunca coloquei os pés na prefeitura de São José dos Campos e jamais fui proprietário ou sócio da CPEM. Desafio qualquer pessoa a apresentar provas em contrário“.
Paulo Okamotto, do PT, disse que era “uma fantasia” que ele circulava pelas prefeituras.
O PT montou uma comissão de ética, que acabou expulsando Venceslau.
Crusoé conversou com Venceslau para falar sobre a personalidade do atual presidente e entender se há chances de ele tentar um quarto mandato.
Qual era a cabeça de Lula nos anos de sindicalismo e de formação do PT?
Eu convivi muito pouco com Lula no final dos anos 70, começo dos anos 80. Ele sempre foi uma figura contraditória.
Quando eu o conheci, ele ainda estava se formando como líder. Eu tinha uma atividade muito grande na periferia de São Paulo. Trabalhava com educação popular, em várias regiões. Naquela época, ainda não existia o PT.
Em um comício na Vila Alpina, que depois ficou famoso, ele praticamente ordenou que os trabalhadores ali presentes agredissem o pessoal ligado à Libelu [Liberdade e Lula], um grupo trotskista. Foi um horror, que o Lula fingiu que não viu.
Achei isso incompatível com o Lula, porque ele não era um reacionário. Mas ele teve esse comportamento questionável, fingindo que não via as agressões.
Foi uma postura ideológica dele, de não admitir que se fizesse política no meio da classe operária.
Mas o que ele de fato procurava era impedir que houvesse concorrência ao seu grupo. Lula sempre foi assim.
Como ele organizava a política local?
O Lula sempre teve o grupinho dele, que era conhecido como o Clube do Mé [referência à pinga]. Era lá, entre esses líderes sindicais mais velhos, que se tomavam as decisões, como a de criar o PT.
Tudo sempre era regado a uma boa cachaça…
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