Crusoé: “Deixe a rede social para os gatos, não para a política”
Facebook, Twitter e assemelhados propiciaram a ascensão de figuras que, como Bolsonaro, governam pela produção de memes e factoides, diz Jerônimo Teixeira na Crusoé...
Facebook, Twitter e assemelhados propiciaram a ascensão de figuras que, como Bolsonaro, governam pela produção de memes e factoides, diz Jerônimo Teixeira na Crusoé.
“No centro da mesa que ocupa o primeiro plano da imagem, há um pratinho de bordas azuis e fundo rosa, na forma estilizada de uma cabeça de gato, com orelhas triangulares. Uma mão entra em cena pelo lado direito do quadro e deposita no prato um item que não consigo identificar. O formato ovalado sugere uma fruta exótica, enquanto a cor vermelho-escura faz suspeitar uma víscera sangrenta. Deve ser um pedaço de fígado cru: só isso explica o miado feliz do gato cinza malhado que agora atravessa a sala correndo para chegar a seu prato. Com as patas dianteiras apoiadas na mesa – deve estar de pé sobre um banco –, ele se põe a morder a iguaria rubra. Só então percebo que o alimento misterioso é… uma beterraba! Nos vinte segundos de duração do vídeo, o gato a devora inteira, emitindo um ruído de satisfação selvagem, entre o miado e o ronrom.”
“Só tive a felicidade de ver essa cena porque os algoritmos indevassáveis de Mark Zuckerberg descobriram que gosto de gatos. O Facebook sempre me sugere vídeos felinos, dentre os quais o mais inusitado é esse que descrevi, estrelado pelo bichano vegetariano. Aqui em casa, ninguém jamais teve a ideia de oferecer a rubra raiz aos nossos felinos – Pipoca, a gata que hoje nos acompanha (está dormindo ao lado do computador enquanto escrevo este texto), e Sig, Dindi e Cookie, os gatos que já partiram. Aliás, para ser franco, nem os humanos da minha família são fãs de beterraba.”
“(Algum leitor rigoroso talvez se inquiete com os rumos desta coluna. Desde quando gatos que comem salada se qualificam como tema digno de Crusoé, revista dedicada aos assuntos mais graves do debate público nacional? Peço paciência: por vias tortuosas, ainda chego a Lula e a Bolsonaro – embora eu deva admitir que teria mais prazer escrevendo apenas sobre gatos.)”
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