Crime organizado amplia influência sobre eleições no Brasil
Facções, milícias e traficantes são investigados por financiar candidaturas, comprar votos e coagir eleitores em diferentes regiões do país
A infiltração do crime organizado no processo eleitoral brasileiro tem acendido o alerta da Justiça Eleitoral e do Ministério Público. Reportagem do G1 mostra que grupos criminosos vêm ampliando sua influência sobre disputas políticas, financiando candidaturas com recursos ilícitos, comprando votos e exercendo pressão sobre eleitores em áreas sob seu domínio.
Para a procuradora da Procuradoria–Geral Eleitoral, Nathalia Mariel, o fenômeno deixou de representar apenas um caso de corrupção eleitoral para se transformar em uma ameaça ao exercício da democracia. “Esse fenômeno já acontecia e agora está saltando aos olhos”, afirmou ao portal. Segundo ela, a atuação dessas organizações compromete a liberdade de escolha dos cidadãos.
No Rio de Janeiro, a preocupação levou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) a adotar medidas excepcionais. Nas eleições municipais de 2024, 53 locais de votação tiveram seus endereços alterados para proteger eleitores de ameaças e intimidações. Para o pleito de 2026, pelo menos 20 zonas eleitorais já estão sob monitoramento para possível transferência.
O presidente do TRE-RJ, desembargador Claudio de Mello Tavares, destacou ao G1 que o sistema eletrônico de votação permanece seguro e que o voto continua secreto. O problema, segundo ele, está na capacidade de grupos criminosos de constranger eleitores antes mesmo de chegarem às urnas.
A reportagem cita ainda o caso de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O policial militar Michel Maia e o então candidato a vereador Dinho Resenha foram condenados por corrupção eleitoral após investigações apontarem um esquema de compra de votos. Dinho também é suspeito de vínculos com a milícia local.
A defesa de Michel Maia afirmou ao portal que a condenação ainda não é definitiva e aguarda análise de recursos. Já os advogados de Dinho Resenha negam as acusações e sustentam que não há provas suficientes para sustentar a condenação.
O avanço dessas práticas não se limita aos grandes centros urbanos. Em Timbé do Sul, em Santa Catarina, uma investigação sobre tráfico de drogas revelou um esquema em que eleitores recebiam cocaína em troca de apoio político.
Segundo o delegado Lucas Fernandes da Rosa, foi a primeira vez que uma investigação conduzida por sua equipe identificou a troca direta de votos por entorpecentes. Conversas encontradas no celular de um traficante mostrariam negociações envolvendo títulos de eleitor e porções de cocaína avaliadas em cerca de R$ 50.
O candidato beneficiado, Sadi Vieira, foi eleito vereador e chegou a presidir a Câmara Municipal. Ele acabou condenado por corrupção eleitoral no último mês de seu mandato, em 2024.
Promotores eleitorais afirmam que a apuração desses casos é especialmente difícil porque os crimes costumam ocorrer em ambientes fechados, marcados pelo medo e pela intimidação. Além do impacto sobre a lisura das eleições, especialistas alertam que a compra de votos contribui para a degradação dos serviços públicos ao favorecer candidatos comprometidos com interesses criminosos em vez das demandas da população.
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