Combinação de IA e exame de sangue zera falhas no diagnóstico da hanseníase
Método desenvolvido na USP combina exame laboratorial e inteligência artificial para detectar a doença em fase inicial
Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) desenvolveram uma estratégia diagnóstica capaz de identificar hanseníase antes do aparecimento de lesões visíveis.
O método alia um exame de sangue baseado em novo marcador biológico a um questionário clínico potencializado por inteligência artificial — e, nos testes realizados, a combinação das duas ferramentas atingiu 100% de sensibilidade na detecção de casos suspeitos.
O estudo, coordenado pelo pesquisador Marco Andrey Frade e com apoio da Fapesp, foi publicado na revista BMC Infectious Diseases.
Nova molécula amplia alcance do diagnóstico
O ponto central da pesquisa é a substituição do antígeno usado nos exames de sangue convencionais. O teste padrão atual detecta anticorpos contra o PGL-I, proteína que só tende a produzir resultado positivo nas formas mais avançadas da doença. O novo exame mira o antígeno Mce1A, também presente no Mycobacterium leprae, e analisa três classes distintas de anticorpos — IgA, IgM e IgG.
“Diferentemente do teste tradicional, que avalia a presença de apenas um tipo de anticorpo, o novo exame analisa três classes diferentes de anticorpos, o que amplia a sensibilidade e ajuda a diferenciar exposição ao bacilo, infecção ativa e contato prévio”, afirma o biomédico Filipe Lima, um dos autores do trabalho.
Nos testes, o anticorpo IgM contra o Mce1A foi o de melhor desempenho isolado, identificando dois terços dos casos confirmados. Segundo Lima, o custo do novo exame é equivalente ao do método já utilizado na rede pública: “Do ponto de vista laboratorial, são técnicas muito semelhantes, de baixo custo e fácil execução. Qualquer laboratório de análises clínicas tem capacidade técnica para realizá-las”.
Diagnósticos feitos em pessoas sem sintomas aparentes
Para validar a abordagem, a equipe aproveitou amostras coletadas durante um inquérito sorológico de Covid-19 realizado em Ribeirão Preto. Das cerca de 700 pessoas inicialmente convidadas, 224 responderam a um questionário digital de 14 perguntas sobre sinais neurológicos — o QSH, aprimorado com o sistema de IA MaLeSQs — e 195 tiveram o sangue analisado.
Todas foram chamadas para consulta presencial com especialistas; 37 compareceram.
O resultado foi expressivo: 12 novos casos de hanseníase foram diagnosticados entre os 37 avaliados. “São pessoas que não tinham sintomas evidentes, não suspeitavam que estavam doentes e foram diagnosticadas graças ao projeto”, diz Lima.
O achado ganha relevância diante de uma limitação conhecida do diagnóstico convencional: mais de 60% dos pacientes em fase inicial apresentam baciloscopia negativa, pois a concentração da bactéria ainda é baixa demais para ser detectada diretamente na pele.
País com alta incidência da doença
O Brasil registra a segunda maior incidência de hanseníase do mundo, superado apenas pela Índia, e responde por cerca de 90% das notificações nas Américas. A Organização Mundial da Saúde estima mais de 200 mil novos casos anuais em todo o planeta, sobretudo em países de renda média e baixa.
O próximo passo do grupo é refinar o marcador Mce1A. “Hoje, o exame utiliza a proteína inteira da bactéria. Agora estamos estudando pequenas partes dessa mesma proteína para avaliar se é possível desenvolver um teste ainda mais sensível e com maior acurácia”, conclui Lima.
A meta de médio prazo é incorporar a metodologia ao SUS e à atenção básica.
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