Brasil está “meio perdido e sem caminho claro”, diz Armínio Fraga
Ex-presidente do BC aponta desajuste fiscal e falta de coordenação macroeconômica como entraves ao desenvolvimento
O Brasil acumula mais de 30 anos de crescimento aquém do esperado para uma economia em desenvolvimento, e o cenário atual não aponta saída clara.
Essa é a avaliação do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, sócio-fundador da Gávea Investimentos, que em evento realizado nesta sexta-feira, 15, pela escola de formação política RenovaBr, disse que vê um país “meio perdido e sem caminho claro”, em uma situação “para lá de preocupante”.
Três décadas perdidas
Desde 1995, quando o Plano Real consolidou a estabilização monetária, o Brasil registrou expansão média per capita de 1,3% ao ano — desempenho inferior ao dos Estados Unidos no mesmo período.
Fraga observou que a teoria econômica prevê o contrário: nações mais pobres tendem a crescer com mais velocidade do que as já desenvolvidas, pois dispõem de maior margem para ganhos de produtividade. “Em tese, país mais pobre tem mais espaço para crescer”, afirmou.
De acordo com informações do evento promovido pelo RenovaBr, o economista avalia que o Estado brasileiro enfrenta um “gravíssimo problema de prioridades” e vive uma “situação de captura do Estado por grupos de interesse”. Nesse quadro, o gasto previdenciário ocupa espaço que, segundo ele, deveria ser destinado a outras áreas. “A Previdência, da forma como se encontra, é inviável”, declarou.
Política monetária sem coordenação
No campo macroeconômico, Fraga apontou falta de sincronia entre a política do Banco Central e as demais frentes do governo. Na sua avaliação, o BC age para conter pressões inflacionárias enquanto outras esferas do setor público operam em sentido contrário. “O BC está tirando água do convés e outros estão jogando para dentro, fica uma política monetária esquizofrênica”, disse.
Segundo o ex-presidente da autoridade monetária, o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, “está lidando com circunstâncias muito adversas”. Fraga ponderou que a independência operacional da instituição perde efetividade sem coordenação macroeconômica mais ampla.
Apesar do diagnóstico adverso, o economista indicou que o país tem capacidade de reverter o quadro. Para ele, o Brasil pode crescer “a taxa três vezes mais rápida por duas décadas”, desde que enfrente os obstáculos políticos e institucionais e reorganize suas prioridades de gasto.
A condição, contudo, passa por um ajuste fiscal que, nas palavras de Fraga, precisa ser “maior do que o necessário para ter juros menor” — além de avanços em segurança pública e integridade institucional. “O nível de corrupção é intolerável”, concluiu.
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