Ave rara da América do Sul volta à natureza após anos em risco de extinção
A soltura que devolve ao campo uma das aves mais caçadas da América do Sul.
Cinco exemplares do cardeal amarelo, espécie classificada como “em perigo” pela UICN com apenas entre 1.000 e 3.000 indivíduos estimados no mundo, foram soltos em uma reserva natural na Pampa argentina em abril de 2025. A operação reuniu cinco instituições de conservação e meses de preparação comportamental antes de cada ave ganhar o campo.
Por que o cardeal amarelo está tão perto da extinção?
O cardeal amarelo é uma ave exclusiva da América do Sul e uma das espécies mais perseguidas pelo comércio ilegal de fauna. Seu plumagem chamativa e seu canto melodioso fizeram com que fosse capturado durante anos para ser vendido como ave de gaiola, especialmente os machos. Somada à perda e à modificação do habitat natural, essas práticas provocaram forte diminuição das populações silvestres.
A captura e o comércio ilegal são a principal ameaça, embora a destruição e a modificação de seus habitats também afetem significativamente as populações silvestres. A espécie é categorizada como em perigo de extinção e habita bosques abertos e matos desde o sul do Brasil até o centro da Argentina, passando pelo Uruguai. Em boa parte dessa área, hoje é considerada rara ou ausente.

Como foi feita a preparação das aves antes da soltura?
Os cardeais amarelos foram criados e preparados no Ecoparque de Buenos Aires, onde especialistas realizaram cuidados, avaliação sanitária e adaptação comportamental antes de autorizar a liberação. Para a reinserção foi utilizada a técnica conhecida como liberação suave, que consiste em manter os animais durante alguns dias em ambientes controlados dentro do mesmo habitat onde serão liberados definitivamente.
Eles reconhecem o perigo, mas depois de estar muito tempo em uma gaiola começam a se sentir protegidos e apagam seu comportamento natural. O que se busca é reativá-los fazendo que se sintam ameaçados, e vai-se verificando suas respostas até comprovar que alcançam o nível buscado. Um cardeal que não reage a predadores aéreos não sobrevive à primeira semana no campo.
As principais ameaças que colocaram o cardeal amarelo na lista de espécies em perigo:
- Captura sistemática de machos para o mercado ilegal de aves de gaiola, prática que persiste em feiras e sites clandestinos.
- Perda e degradação do habitat pelo avanço das atividades agropecuárias na ecorregião do Espinal argentino.
- Afogamento em tanques de água para gado, que as aves usam como fonte hídrica e dos quais não conseguem sair.
- Baixa taxa reprodutiva natural, que torna a recuperação da espécie lenta mesmo quando as ameaças são reduzidas.
- Dimorfismo sexual pronunciado: machos mais vistosos são os mais visados, desequilibrando a proporção de sexos nas populações.
Quem organizou a soltura e o que cada instituição fez?
A liberação, concretizada em abril de 2025, foi possível graças à articulação entre o Ecoparque de Buenos Aires, Aves Argentinas, Fundação Temaikén, o Colaboratório de Biodiversidade, Ecologia e Conservação e autoridades da Pampa. Esse tipo de iniciativa reflete a importância do trabalho coordenado entre o Estado e organizações especializadas, que aportam conhecimento técnico e recursos para avançar na recuperação de espécies ameaçadas.
Cada ator tinha uma função específica na operação. O Ecoparque cuidou da criação e da saúde das aves. Aves Argentinas coordenou o combate ao tráfico ilegal. A Fundação Temaikén conduziu a reabilitação comportamental. As autoridades da Pampa garantiram a área protegida e o monitoramento pós-soltura. Nenhuma das cinco aves teria chances reais de sobreviver no campo sem essa cadeia completa funcionando ao mesmo tempo.
| Característica | Dado |
|---|---|
| Nome científico | Gubernatrix cristata |
| Distribuição | Sul do Brasil, Uruguai e Argentina |
| Status global (UICN) | Em perigo de extinção |
| Estimativa populacional | Entre 1.000 e 3.000 exemplares |
| Principal ameaça | Tráfico ilegal + perda de habitat |
| Exemplares soltos na Pampa (2025) | 5 indivíduos após meses de reabilitação |
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O que ainda precisa mudar para a espécie se recuperar de verdade?
A principal ameaça segue sendo a captura ilegal, à qual se soma a perda de habitat pelo avanço das atividades humanas. Na Argentina, a espécie conta com proteção legal, o que busca desestimular sua comercialização e preservar os exemplares que ainda restam em estado silvestre. A lei existe, mas a fiscalização nas feiras e plataformas digitais onde o tráfico ocorre ainda é insuficiente.
A limitação real de cada soltura é numérica: cinco aves em um universo de no máximo 3.000 exemplares mundiais representam menos de 0,2% da população estimada. A soltura na Pampa importa, mas a recuperação da espécie depende de algo que nenhum programa de reintrodução resolve sozinho: parar a captura ilegal antes que as aves cheguem à gaiola. Segundo o projeto permanente de Aves Argentinas, centenas de exemplares já foram reintroduzidos no sul de Buenos Aires em operações anteriores, o que indica que o esforço de conservação é contínuo, ainda que a recuperação populacional seja lenta.
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