Vorcaro conhece cela comum enquanto tenta delação 

22.10.2026

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O Antagonista
Vorcaro conhece cela comum enquanto tenta delação 
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Ricardo Kertzman
3 minutos de leitura 19.05.2026 09:30 comentários
Análise

Vorcaro conhece cela comum enquanto tenta delação 

Uma coisa é colaborar. Outra, completamente diferente, é transformar bandido em parceiro da República

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Ricardo Kertzman
3 minutos de leitura 19.05.2026 09:30 comentários 2
Vorcaro conhece cela comum enquanto tenta delação 
Foto: Reprodução Policia Federal

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro deveria descobrir o que centenas de milhares de pobres presos já sabem há décadas: cadeia não é networking, camarote ou mesa de restaurante estrelado. Pelo contrário. Tem cheiro de esgoto (como em mais de 50% dos lares do país), comida ruim e precária (comum a dezenas de milhões de brasileiros), violência desenfreada (equivalente ao que se vê nas grandes cidades) e cama de concreto (duro como a vida média brasileira). É exatamente onde ele deveria permanecer, por muitos e muitos anos.

As investigações envolvendo o Banco Master avançaram de maneira brutal nos últimos meses. A discussão de uma possível delação premiada se tornou tema central nos bastidores políticos, jurídicos e policiais do país. Polícia Federal e Procuradoria Geral da República disputam e divergem, apoiam e resistem, buscam e impedem – cada um a seu modo e interesses – a homologação do acordo porque ainda haveria dúvidas sobre a robustez das informações já prestadas, bem como a precariedade (economia) dos fatos.

Eis aí outro grande teatro moral brasileiro. O sujeito protagoniza um esquema bilionário de fraudes, destruíndo o patrimônio alheio, contaminando relações institucionais e distribuindo dinheiro, influência e favores em escala industrial. Depois, quando a tranca chega, vem com a conversinha mole sobre “cooperação com as autoridades”. Uma ova! Rouba-se dezenas de bilhões e, em seguida, negocia-se a devolução parcial da montanha de dinheiro – guardando o suficiente para uma vida nababesca – como se fosse demonstração de arrependimento.

Sem perdão

Imagine um assaltante levando uma Mercedes, um relógio e metade da conta bancária de um figurão da República. Dias depois, reaparece oferecendo devolver volante e pneus em troca de responder em liberdade. Seria perdoado? Jamais. É mais ou menos a lógica torta dos delatores. Uma tentativa mequetrefe de naturalizar o crime e suavizar a imagem do ladrão, quando o criminoso usa terno italiano e transita entre ministros e políticos. Nestes casos, sendo a vítima um cidadão comum, ou a sociedade, entram em cena os especialistas em delação.

Se houve um roubo superior a R$ 50 bilhões, como apurações vêm sugerindo em diferentes frentes investigativas, oferecer R$ 40 bilhões, como fez Vorcaro, segundo notícias recentes, não é reparação alguma. É cálculo jurídico-penal-financeiro. É a aposentadoria em uma ilha paradisíaca no exterior, daqui a alguns anos. Não existe justiça ou reparação em devolver parte do produto de um roubo depois da prisão. Existe medo de morrer na cadeia – e nada mais. E pouco importa se os delatados forem o Papa ou Donald Trump.

A delação, no Brasil, criou o perdão seletivo. O ladrão de esquina vai para o inferno prisional. O fraudador bilionário negocia cláusulas, benefícios, proteção familiar, regime diferenciado. Quanto maior o estrago, maior a barganha. O incentivo implícito é pornográfico: vale a pena correr o risco. Delação premiada é instrumento legítimo? Claro. Em determinados casos. Mas não pode virar lavanderia oficial para criminosos sofisticados. Uma coisa é colaborar. Outra, completamente diferente, é transformar bandido em parceiro da República.

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Ricardo Kertzman

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Comentários (2)

Alice

21.05.2026 13:13

Excelente artigo , Ricardo.


Annie

19.05.2026 10:26

Deveriam fechar a cela e jogar a chave fora.


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