Uma banana para o Brasil
Eduardo Bolsonaro rifa o país, confessa que é patriota de bandeira estrangeira e grita as dores do sofrimento alheio
Tomás de Aquino – filósofo, teólogo e santo – dizia que não há fins bons sem meios adequados. Minha mãe, que não era filósofa, teóloga ou santa, simplificava dizendo que dois errados não fazem um certo. Eduardo Bolsonaro discorda do santo e da minha mãe. Para ele, quanto piores os meios, melhores os fins, contanto que os fins lhe interessem. E um erro com outro erro se paga.
Sua entrevista ao jornal O Globo é um manifesto. Mais que um manifesto, uma declaração de princípios – ou da falta deles. Perguntado se trabalha para que Trump aumente as sanções contra o Brasil, não hesitou, nem, presumo, enrubesceu: “Trabalho sim”, confessou o exilado que se alia ao país agressor. Eduardo Bolsonaro joga os brasileiros na fogueira e, de longe, grita as dores do sofrimento alheio. A economia a gente vê depois.
É verdade que a bagunça política, institucional e jurídica do Brasil não será resolvida com mais bagunça política, institucional e jurídica. Mas, considerando que é assim que tem sido feito, que os termos são esses e não são de hoje, precisamos separar bem as coisas, para só depois juntá-las. Nesse enredo não há mocinhos. Quando foi que saímos da rota constitucional?
Desde a derrota de Bolsonaro, em 2022? Desde a anulação das sentenças da Lava Jato, ou da instauração da própria Lava Jato? Desde o impeachment de Dilma, de sua vitória ou da contestação de Aécio Neves? Desde o Mensalão, ou antes, da emenda à reeleição? Desde as manifestações de 2013, com os black blocks, ou as de 1992, com os caras pintadas? Deste as quarteladas que derrubaram a monarquia ou desde a chegada das caravelas ao sul da Bahia?
Acho que vocês entenderam. O Brasil é o Brasil, e não é de hoje.
Concordo que algumas das medidas tecnicamente questionáveis (e nem sempre compreensíveis) de Alexandre de Moraes não têm ajudado a pacificar o país, mas não podemos fingir que acontecem em um ambiente de calmaria republicana. Os Bolsonaro, seus cúmplices e seus simpatizantes, sabem o que estão fazendo, a quem estão provocando e o que querem provocar. Alguém já ouviu falar em “false flag”?
Nada foi ou será por acaso. O bolsonarismo é um movimento golpista porque Jair Bolsonaro é um político de inspiração golpista. Ele nunca negou. Participa do jogo, mas coloca em dúvidas suas regras. Sua ficha-corrida de declarações, ameaças, atos e omissões é extensa e conhecida. Se a Bastilha brasiliense tivesse caído no 8 de janeiro, a história seria uma. Como não caiu, a história será outra. Um golpe frustrado é pior que golpe nenhum. A reação viria forte, e veio. Não julgo, constato.
Poderíamos discutir apenas as minúcias jurídicas e os desdobramentos políticos da colisão – e da confusão – entre os Poderes. Deveríamos ter espaço na agenda para debater os trancos e solavancos do STF, mas a família não deixa. Acusar os perigos de uma certa “ditadura da toga” seria motivo de aplauso, e eu mesmo aplaudiria em pé, se quem acusasse fosse democrata sem adversativa. Mas são milicianos ideológicos.
Quem mais reclama do voluntarismo de Alexandre de Moraes é quem defendia uma Corte biônica, um Congresso passivo, uma imprensa domesticada, uma democracia de fachada. Quem mais reclama das prisões, da censura e da suposta falta de previsão e garantias legais é quem garantia, e garante até hoje, que “no tempo da ditadura era melhor”. Quem semeava o coronel Brilhante Ustra, cedo ou tarde, colheria o ministro Alexandre de Moraes.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (2)
Nelson Lemos Costa
08.08.2025 17:35Perfeito, Gustavo.
Marcos Rezende
06.08.2025 17:05Bandidos são bandidos e tem quadrilha para se protegerem. Eo povo? Que vá à PQP.