Sóstenes e os R$ 400 mil em dinheiro: imóveis. Sempre eles
Imóveis são o “comodín” da política quando aparece dinheiro vivo que não combina com a normalidade comercial e a liturgia republicana
Quando a Polícia Federal encontra centenas de milhares de reais em espécie na casa de um político, geralmente em desconformidade com os rendimentos e o patrimônio informado pelo ilibado representante do povo à Receita Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – algo longe de ser novidade em Banânia -, a explicação precisa ser razoavelmente clara, mas nem isso nossos honrados “cidadãos de bem” são capazes.
O deputado federal pelo PL do RJ – Ê, Rio de Janeiro! -, Sóstenes Cavalcante escolheu a mais previsível delas (explicação). Disse que a bufunfa encontrada em sua casa vem da venda de um imóvel. Em dinheiro vivo: “Eu ia depositar, mas não tive tempo. Guardei no guarda-roupa, no meu flat”. Naturalíssimo, claro. Afinal, quem nunca, não é mesmo? Estou desmentindo o patriota ou acusando-o de algo? De jeito nenhum.
Imóveis são o “comodín” da política quando aparece dinheiro vivo que não combina com a normalidade comercial e a liturgia republicana – se é que ainda existe. Não é novo. Não é criativo nem minimamente convincente. Mas muito familiar. Sobretudo entre bolsonaristas – da família ou não. Às vezes, varia um pouco: saem os imóveis, entram os panetones de chocolate. O importante é dinheiro em espécie e fora do sistema bancário.
Antigamente eram originais
A cena se repete: a PF bate à porta, encontra maços e maços de notas em volume incompatível com a vida bancarizada que qualquer cidadão comum é obrigado a ter. A resposta vem rápida e pronta: “Foi um imóvel”. Sempre há um. Comprado ou vendido, à vista, em espécie. Como se estivéssemos em 1970, sem TED, PIX, escritura eletrônica. E claro, a sequência da justificativa: “É perseguição política”.
No bolsonarismo, então, virou tradição. Jair Bolsonaro, parentes e afins já foram associados, em reportagens extensamente documentadas, à transações imobiliárias com pagamento total ou parcial em dinheiro vivo. O padrão é conhecido: valores altos, registros tardios em cartórios periféricos, explicações protocolares O pior é a naturalidade diante do fato de a normalidade ser atropelada por uma sacola cheia de notas em casa.
Sóstenes apenas repete o script. Não inova, não se constrange, afeta indignação. Mas não percebe o quanto sua justificativa já nasce gasta, cansada. A alegação – ou mesmo o fato, salvo prova em contrário – não é ilegal. O problema é outro. É o conjunto da obra. É a reincidência do mesmo argumento de um grupo que se diz paladino da moralidade, da família e da pátria, sempre em nome de Deus, é claro. Saudade dos tempos do Geddel.
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