Os Estados Unidos “de verdade” precisam reagir a Trump
Após a pandemia do coronavírus, em 2020, houve quem acreditasse que o mundo mudaria radicalmente para melhor. Eu acreditei. Quebrei a cara
Passei os últimos três meses vivendo em Nova York, estudando. Já havia morado por lá em 2021, no início do pós-pandemia, e visitado a cidade por períodos mais curtos inúmeras vezes antes.
Tenho uma ligação especial com os Estados Unidos, que não sei explicar. Talvez por uma infância sedenta por Mickey e Pato Donald, frustrada por condições financeiras adversas. Ou, quem sabe?, pela primeira viagem internacional – justamente à Big Apple -, ao lado de um grande amor (minha mãe).
Fato é que fui totalmente influenciado pela cultura americana desde cedo. Consumia desenhos animados, filmes, séries, livros, quadrinhos. Todos os meus heróis ostentavam o azul, vermelho e branco estrelados. Carros, aviões, marcas, língua… USA, USA, USA!
Insanidade
Os dias em Nova York, após a posse de Donald Trump, foram estonteantes. Uma enxurrada de falas, decretos, noticias, atos. Por mais absurdas – e algumas corretas, sejamos justos – que suas ordens executivas parecessem, as reações permaneciam tímidas. Os democratas, merecidamente, estão na lona. A imprensa, merecidamente, acuada. Os Estados Unidos, imerecidamente, divididos, perdidos.
Mas após o evento cataclísmico de sexta-feira, 28 de fevereiro, na Casa Branca, em Washington, DC, em que Donald Trump e seu vice, J.D. Vence, covardemente acuaram o presidente Volodomyr Zelensky, da Ucrânia, rasgando o disfarce de defensores da liberdade e assumindo de vez a parceria imperialista com o tirano invasor russo, Vladimir Putin, confesso estar triste, com o coração apertado.
Quando Trump falava em anexar o Canadá, parecia piada. Em tomar o Canal do Panamá, pressão comercial. Em comprar – ou invadir – a Groenlândia, devaneio. Quando, por conta própria, rebatizou o Golfo do México, para ele, hoje, Golfo da América, soou ridículo. Mas “deem um Google”. É pra valer! Aliás, a Associated Press (AP) está sendo boicotada pela Casa Branca, porque se recusa a adotar a nova nomenclatura. Imprensa livre e liberdade de expressão, para essa gente, são seletivas. Como seletiva é a democracia.
Pandemia
Uma moça violentada jamais será a culpada, pouco importam as circunstâncias. Os democratas, a esquerda, a maldita doutrinação woke e o politicamente correto jamais serão os culpados pelos atos de Donald Trump. Mas é inegável que foi a partir do enfaro causado por eles, que esta besta-fera reacionária escapou da jaula e retomou o poder.
Hoje, o farol do mundo livre está apagado. O berço da liberdade foi capturado pela opressão do coquetel “bilhões + armas + poder”, sorvido compulsivamente por homens cujos transtornos mentais figuram entre as três ou quatro mais comuns doenças psíquicas conhecidas.
As três maiores superpotências militares do mundo estão nas mãos de autoritários, cujos povos ou vivem sob rígidas autocracias ou sob o império da divisão ideológica, tornando seus líderes intocáveis e capazes de ou liderar o planeta à terceira guerra mundial (provavelmente a definitiva) ou a uma nova ordem global em que, como os chefões das máfias de outrora, dividirão a Terra em nacos que a eles se subjugarão.
Após a pandemia do coronavírus, em 2020, houve quem acreditasse que o mundo mudaria radicalmente para melhor. Eu acreditei. Quebrei a cara.
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Comentários (9)
EDIVALDO FERNANDES DE FARIAS
03.03.2025 14:25Em 2011, visitei um amigo alemão que vivia na cidade de Karlsruhe. Ele me contou sobre um centro de estudos na Alemanha dedicado a entender os eventos da Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, a conclusão a que chegaram é que a causa principal de todo o desastre humano não foi apenas Hitler, mas sim o sistema que permitiu que alguém como ele chegasse ao poder. Diante disso, precisamos refletir sobre a força dos nossos sistemas de controle em relação ao crescimento mundial da extrema-direita. Não há problema com a esquerda, o centro e a direita; o problema reside na palavra "Extrema", que desequilibra qualquer sistema, seja extrema esquerda ou extrema direita. Quando perdemos o controle do sistema, algo errado certamente acontecerá.
EDIVALDO FERNANDES DE FARIAS
03.03.2025 14:07Parabéns pelo artigo, escrito com muita lucidez. Sempre pergunto às pessoas: "O que você está enxergando?". O certo e o errado dependem dessa perspectiva.
Angelo Sanchez
02.03.2025 12:55O correto para a paz seria Zelensky concordadar que os territórios invadidos seja russos, por enquanto, e que; a cada quatro anos haja um plebiscito para saber se os moradores destes territórios estão felizes ao lado dos russos ou não. Se, não, a Ucrania volta a ter poder sobre os territórios ou em última hipótese eles seria livres e costituiriam um novo país,
Eduardo
02.03.2025 09:08Parabéns pelo artigo!
Luis Eduardo Rezende Caracik
02.03.2025 06:02A verdade vai emergindo pouco a pouco. Os Estados Unidos são um pais dependente de guerras, e da mentira sistemática a seus cidadão e ao mundo. Guerras como a do Vietnam, Iraque , Afeganistão, e agora Ucrânia, são um enorme fonte de lucros para a indústria bélica americana, e são sempre travadas em locais distantes. Some se a isso a russofobia criada e cultivada pelos americanos desde a segunda guerra mundial e pronto. A guerra da Ucrânia é na verdade uma guerra por procuração entre os Estados Unidos e Rússia. Agora, se esforçam para criar a sinofobia, e assim continuarão.
Marian
01.03.2025 22:52Apenas Trump é aliado a Putin? E por aqui? Até que ponto os países que mandaram armamento e dinheiro são verdadeiramente aliados da Ucrânia ?
Bernardo De Faria Leopoldo
01.03.2025 20:57Parabéns pelo artigo, Kertzman. Você trouxe algo que é fundamental para cidadãos conscientes: ser vigilantes com políticos de todos os espectros. Especialmente quando eles aparentam estar defendendo valores com os quais temos afinidades, mas na prática, os estão enfraquecendo.
Clayton De Souza pontes
01.03.2025 19:42Eu também achava que eram puros devaneios do Trump a anexação do Canadá e outros. Essa covardia com o Zelensky me mostrou a realidade bem retratada no seu artigo
Maraci Rubin
01.03.2025 19:16Ê frustrante, não é, Ricardo? Excelente desabafo.