O “novo normal” após a destruição de Donald Trump
A inflação mundial, que não se curvou após a pandemia, tende a se acelerar. Quando recessão e inflação caminham juntas, o nome é estagflação
A crise geopolítica e financeira em curso, causada por Donald Trump, está longe de terminar e é cada vez mais imprevisível. Não há analista político, econômico ou o Cristo que possa prever, com um mínimo grau de certeza, o que virá pela frente. Aliás, muito provavelmente, nem o próprio bufão alaranjado e sua equipe aloprada devem saber.
Os mercados globais derretem como poucas vezes na história moderna. Há décadas, apenas dois eventos cataclísmicos tiveram tamanho impacto: a crise mundial de 2008 e a pandemia do novo coronavírus, em 2020. Historiadores já comparam o momento atual com o período pós-crise de 1929 e pré-segunda guerra mundial.
Mais de 10 trilhões de dólares já foram pulverizados nas bolsas de valores de todo o mundo. Economistas já não discordam de uma recessão americana e, possivelmente, mundial. A dúvida é: quando? Cadeias produtivas, fundos de pensão, bancos com operações de risco… Não há segmento, ou pessoa física e jurídica, em paz.
Fim de relacionamento
Uma coisa é mais do que certa: o mundo jamais será o mesmo. Nenhuma nação voltará a confiar nos Estados Unidos cegamente. O lastro mundial na moeda americana será igualmente colocado em cheque. Ainda que Trump recue – muito! – e as coisas se acalmem em curto prazo, a cicatriz permanecerá profunda e eterna.
A humanidade mudou depois da covid. Hábitos antes tímidos, ou inexistentes, hoje são parte intrínseca do cotidiano. Trabalho remoto, por exemplo. A dependência de produtos estratégicos importados – de modo geral da China – fez com que países desenvolvidos retornassem à produção local. Auxílios se tornaram regra, e não mais exceção.
À época da covid, cunhou-se o termo “novo normal”. Pois o tomo emprestado e prevejo um “novo normal” global daqui para frente, assim que o tsunami Trump passar. Um único homem está sendo capaz de colocar em risco todo o planeta e mais de 8 bilhões de pessoas. A história o retratará como um dos párias da humanidade.
Arrumem um divã
A inflação mundial, que ainda não se curvou após a pandemia, tende a se acelerar. Quando recessão e inflação caminham juntas, o nome é estagflação. Com as tecnologias cada vez mais presentes, a pressão sobre o emprego tende, igualmente, a aumentar. À estagflação somar-se-á, provavelmente, o desemprego. A tríade do capeta estará formada.
É bobagem ficar especulando sobre qual setor ou país será beneficiado. Todos perderão! Uns mais, obviamente, outros menos. A esperança de dias menos piores restará nas eleições de meio de mandato (midterms) nos EUA. Ano que vem, a Câmara dos Deputados e 1/3 do Senado serão reformados. Se os democratas fizerem a maioria, menos pior.
Neste momento em que escrevo, como em filmes de bang-bang dos anos 1950, Trump deu um prazo “Até amanhã, às 13h”, para a China não retaliar as sobretaxas. É surreal. O sujeito brinca de cowboy. Aliás, todos estes extremistas autoritários padecem de extrema insegurança relacionada à própria masculinidade. Bem que Freud poderia estar por aqui. Talvez algumas sessões de terapia impedissem o colapso global.