O cúmplice de Vladimir Putin
Houve quem acreditasse nas habilidades do americano e nas intenções do russo; há quem acredite em tudo
Na semana passada, enquanto o ditador Vladimir Putin pisava em solo americano e era recebido com tapete vermelho pelo aspirante a ditador Donald Trump, eu publicava a crônica Tigrão com Zelensky, tchutchuca com Putin. Fui gostosamente criticado pela audiência, que via no encontro o sinal de que a carnificina acabaria em algumas horas e a validade do meu texto acabaria em alguns minutos. Infelizmente não acabaram: nem a guerra nem o texto.
Bastaram poucos dias para que Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, admitisse que “a matança infelizmente continuará enquanto a guerra durar”. Trump, tigrão com Zelensky e tchutchuca com Putin, confessou que “não se surpreendeu” com o ataque russo a Kiev na madrugada desta quinta-feira, 28, que deixou pelo menos 21 mortos.
O fato é que Trump não se surpreendeu mesmo. Suas declarações, seus gestos e suas omissões servem como ilusionismo semiótico para manter algum controle narrativo sobre as verdadeiras intenções, que não são aquelas que seus simpatizantes pretendem conhecer. Quem acredita no presidente dos EUA, acredita que ele quer acabar com a guerra. Eu duvido muito.
E duvido muito porque a resolução de conflitos não interessa ao pós-republicano. A agressão imperialista à Ucrânia, as matanças em Gaza, a desorganização do comércio internacional, a tensão migratória, os protestos de estudantes em universidades – quaisquer que sejam os conflitos, são úteis à retórica belicista e arbitrária de Trump.
Um mundo pacificado – retifico: um mundo ao menos compreensível em suas premissas mais básicas: liberalismo, livre-comércio, proteção social – atrapalharia os planos do americano. Ele precisa de uma Europa frágil, de uma América Latina empobrecida, de uma China na defensiva, dos protestos em seu próprio país, para vender seu nacionalismo atrasado e suas medidas de exceção.
Ele quer, e seus eleitores também querem, uma nova edição da Guerra Fria. Interessa dividir o poder global com a Rússia, mas noutros termos. Se o tenso equilíbrio que se seguiu à Segunda Guerra teve como nota dominante um pacto de não-agressão, desta vez, o que se almeja é um arranjo em que russos e americanos saiam ganhando – em detrimento do resto. Nós somos o resto. Putin e Trump não são inimigos: são cúmplices.
Leia também: “Matança infelizmente continuará”, diz Casa Branca após ataques russos a Kiev
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Comentários (3)
FRANCISCO JUNIOR
29.08.2025 22:41Perfeita a coluna.
Marcos Rezende
28.08.2025 18:58Muita maldade. É o ponto. E temos mais um cúmplice aqui. E dos dois. Cúmplice do Putim e do Laranjão,, pois é o "inimigo" do momento, pra chamar de "nós contra eles" Sem isso a popularidade despenca. E o povo? Que vá à PQP.
ANDRÉ MOURA MOREIRA
28.08.2025 17:12Absolutamente correto.