O bolsonarismo como ele é
Ideologia mutante, que pode se apresentar como bem queira, mesmo que diferente de si ou oposta à sua própria natureza
Com a derrota nas urnas, a frustrada tentativa de golpe, a condenação à inelegibilidade e a provável prisão de Jair Bolsonaro, sabe Deus (ou Moraes) até quando, o bolsonarismo começa a dar sinais de se esgotar como possibilidade eleitoral, embora ainda tenha força como uma espécie de “movimento”.
Que os atos a favor do ex-presidente estejam cada vez mais esvaziados – de eleitores e, agora, de aliados – parece indicar que, finalmente, os candidatos da direita ao Planalto em 2026 estão se deslocando para o centro e se descolando da extremidade.
O tudo-ou-nada de Eduardo Bolsonaro – contra os brasileiros e a favor de seu pai – pegou mal. Lula tem aproveitado a herança incidental apontada nos indicadores de aprovação e já se acredita capaz de rivalizar com Tarcísio, Zema ou Caiado.
Entretanto, o espólio ideológico do bolsonarismo será recolhido por alguém (Nikolas Ferreira?). Porque, mais do que uma agenda política, é uma cosmovisão – abrangente o bastante para dar conta de fenômenos, demandas e preconceitos sociais diversos, mas simplista o suficiente para caber num vocabulário exíguo, feito de jargões e palavras-de-ordem.
O bolsonarismo é uma ideologia mutante que pode se apresentar como bem queira, mesmo que diferente de si ou oposta à sua própria versão para ingênuos. Nem por isso será acusada de estelionato, pois a instrumentalização dos princípios sempre foi essência, nunca acidente.
Se o conservadorismo não é bem o que Bolsonaro pensava que é, pior para o conservadorismo; se o liberalismo econômico colidia com o oportunismo eleitoral, a culpa é do liberalismo econômico; se o combate à corrupção resvalava num dos filhos ou na esposa do presidente, Sérgio Moro que se vire com suas minúcias jurídicas.
As recorrentes manifestações antidemocráticas, autoritárias e entreguistas – como, no exemplo mais recente, mobilizar uma potência estrangeira contra a economia e o Judiciário do próprio país – servem para reaproximar criador de criaturas e distinguir aliados de cúmplices.
Mas, aquém ou além de uma visão de mundo, a seu modo coesa e lógica, o bolsonarismo é também uma espécie de falha de caráter, de insistência no erro, de delito intelectual continuado. Para isso, não há remédio nem retórica que dê jeito.
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Comentários (2)
Joaquim Arino Durán
02.08.2025 12:02De "insistência no erro", já estamos bem experientes.
Um_velho_na_janela
02.08.2025 11:03Parabéns Gustavo, simples, didático e objetivo, no popular diríamos que o bolsonarismo é um movimento idealizado e executado por uma quadrilha oportunista e gananciosa apoiada por cúmplices de olho na chave do cofre e pelos ingênuos idiotizados de sempre, acreditando em Papai Noel desde que tenha prometido presentes para eles.