O bicho-empresário, e Lula lambendo os beiços
Quando os lucros e dividendos - e os bônus, claro - saem pela porta, Deus, pátria e família voam pela janela
Há uma velha – certo modo verdadeira e triste – máxima popular, que diz: “Se o dinheiro sai pela porta, o amor voa pela janela”. Ninguém se torna empresário por idealismo. Até há os que queiram impactar positivamente a sociedade e melhorar o mundo. Mas o princípio, meio e fim da atividade empresarial é ganhar dinheiro. Sempre e cada vez mais. Ainda bem. Do contrário, eu não estaria, aqui, escrevendo em um teclado, e você, aí, me lendo em uma tela. Money makes the world go round. Graças a Deus!
Ainda é cedo, e particularmente não creio, para afirmar que Lula irá se fortalecer com o tarifaço – em curso, mas não definitivo, sempre é bom lembrar – de Trump contra (também) o Brasil. Como o bufão alaranjado resolveu, no nosso caso, acrescentar à sua mafiosa prática comercial um componente político-ideológico, a discussão deixou o mundo real da economia e se deslocou para a metafísica da política, ou melhor, da narrativa política. Neste sentido, se o estrago financeiro é certo modo limitado, o político-eleitoral, não.
Uma coisa é certa: o bolsonarismo se lascou! Se o suficiente para enfraquecê-lo a ponto de ser batido nas eleições de 2026, também acho prematuro afirmar. Mas, hoje, é o grande derrotado político, ainda que, repito, eu não entenda que Lula saia lucrando. Nossa eterna estoquista de vento, a ex-presidente Dilma Rousseff, diria: “Nem todo mundo vai ganhar ou perder. Vai todo mundo ganhar e perder”. Nessas horas é que me lembro de outra máxima popular: “Nada está tão ruim que não possa piorar”. O Brasil não é mesmo para amadores.
Escolhas e consequências
Jair Bolsonaro só chegou onde chegou, desde a pré-campanha em 2018, passando por seu desgoverno aloprado e o fim melancólico de golpista mambembe, pelo apoio irrestrito e pesado de boa parte do empresariado nacional. Não por amor ao “mito” e sua família, mas por ojeriza ao lulopetismo. E quanto mais essa elite empresarial – genial para gerir empresas e ganhar dinheiro, mas medíocre intelectual e politicamente – era dragada para o radicalismo bolsonarista, acreditando que o Brasil se tornaria a Venezuela se Lula voltasse, mais descolada da realidade e de seus negócios se tornou.
O governo Lula 3 é tão ruim e tão moralmente desprezível – nenhuma novidade, aliás -, que o mundo empresarial, ciente da inelegibilidade do patriarca do clã das rachadinhas, já há algum tempo, partiu em busca do novo anti-Lula. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, parece ser o ungido a novo salvador, mas o apoio de Jair Bolsonaro é – ou era – não apenas fundamental, mas certo modo imprescindível. Até que… Tchan, Tchan, Tchan, Tchan! Trump, após desistir da Rússia e bombardear as instalações nucleares do Irã, se lembrou de outro brinquedinho bélico: sua guerra tarifária mundial; o Brasil inclusive.
O ponto é: a alopragem trumpista-bolsonarista, ainda que 99% retórica e 1% prática, “colou”. O lulopetismo a está usando para atirar os “patriotas” contra os brasileiros. E os bolsonaristas a estão usando para atirar os “comunistas” contra os “patriotas”. Entenderam por que, a meu ver, Lula não ganha e Bolsonaro perde? Os brasileiros, como um todo, exceto a bolha fanática bolsonarista, estão contra Trump e, por consequência, Bolsonaro. Contra Lula estão apenas os que já eram mesmo. E a seu favor, os que já eram, também. E aqui entra o bicho-empresário, que não gosta de muita coisa, mas, principalmente, de perder dinheiro.
No cheque especial, não dá
Setores como o agronegócio, que aderiu em peso ao bolsonarismo e ao anti-petismo, agora, começam a fazer as contas. Mineração, siderurgia, peças e equipamentos… O tarifaço de Trump, vendido como graça e obra da família Bolsonaro – pelo próprio clã -, se de fato entrar em vigor a partir de 1º de agosto, fará muito bolsominion, com camisa da Seleção Brasileira, deixar de frequentar os “domingos no parque” da Avenida Paulista (manifestações pró-anistia etc.), para aderir, assim espero e rezo, aos “isentões”, que apontam, desde sempre, o erro em optar pelo ruim contra o pior.
Enxergo este momento como mais uma das bifurcações históricas do Brasil: ou caminharemos ainda mais fundo na polarização inventada, difundida e alimentada pelos profissionais do ilusionismo político – esquerda x direita; Lula x Bolsonaro; Trump x anti-Trump -, mantendo-nos aprisionados em mais um inútil ciclo de quatro anos, ou optaremos, majoritariamente, como sociedade, pelo afastamento dos polos, finalmente entendendo que ambos são péssimos e incapazes de nos levar a um lugar minimamente melhor.
Aqui, e no mundo, a política orbita o grande capital. E quando este “ente” se afasta de um lado, a chance de derrota é enorme. Não há amor a Bolsonaro, ou ódio a Lula, que supere um bottom line “vermelhinho em folha” no balanço anual. Quando os lucros e dividendos – e os bônus, claro – saem pela porta, Deus, pátria e família voam pela janela.
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Comentários (5)
Ita
14.07.2025 14:42Que Deus nos ouça!!!
Marcia Elizabeth Brunetti
13.07.2025 09:20Desejo que suas palavras se tornem verdade. Os isentões estão apanhando mais do que há dias atrás. Uma avalanche deles apareceram enfurecidos no chat do Papo Antagonista. Quero também acreditar no que KIM falou dias atrás numa entrevista "Bolsonaro não se tornará elegível" e atribui sua afirmação aos bastidores de Brasília. Agora só com fé!
João Bento Corrêa Lima
11.07.2025 21:09Que maravilha de texto; sucinto e completo! Parabens Ricardo Kertzman. Não perco suas postagens.
Rosa
11.07.2025 19:04Boa.....
Guilherme Rios Oliveira
11.07.2025 19:03Ricardo, eu sempre fui e me comportei como um isentão de centro-direita e fã do liberalismo econômico capitalista. Sempre gostei muito dos seus artigos, este então, é uma injeção de otimismo na veia. Espero e torço muito para que você esteja certo. De qualquer forma, mais uma vez, parabéns!!!!!!!