Nova pesquisa mostra oscilações de candidatos não por feitos, mas por defeitos
Cada lado sobe quando o outro erra. Como se diz no futebol, jogam no erro do adversário
A nova pesquisa Genial Quaest, divulgada nesta quinta-feira, 13, derrubou a narrativa de que Lula vinha “recuperando terreno” pela força de seu governo ou por seus méritos próprios, como a aproximação teatral com o presidente americano Donald Trump. O que os números mostram, com frieza quase didática, é outra coisa: quando o chefão petista subiu, não foi por mérito; foi por erro alheio. E agora, quando cai, também não é por virtude da oposição.
O pai do Ronaldinho dos Negócios aparece com aprovação menor, desaprovação maior e vantagem reduzida em simulações de segundo turno. Romeu Zema, Tarcísio de Freitas e até – vejam só! – Eduardo Bolsonaro surgem numericamente mais competitivos, mas não porque tenham apresentado qualquer novidade ou projeto estruturante para o país, ou mesmo discurso capaz de comover o eleitor. Eles apenas ocuparam o espaço aberto pelos equívocos de Lula.
Para entender, basta olhar o passado. A melhora que Lula exibiu em levantamentos anteriores coincidiu com os equívocos públicos do bolsonarismo, especialmente quando Dudu Bananinha decidiu transformar o tarifaço de Trump em artefato político pessoal. Empresários, exportadores e setores da direita receberam mal a ideia. O gesto enfraqueceu o bloco que deveria se consolidar como contraponto a Lula – que não cresceu; foi empurrado para cima.
Lá e cá
O mesmo se repetiu nos atos pela anistia de Jair Bolsonaro. A movimentação deixou cristalino para o eleitor médio que a prioridade do grupo não é a situação dos presos do 8 de janeiro, mas a proteção do ex-presidente. A pauta, que poderia ter sido apresentada como defesa de princípios jurídicos, virou agenda de uma família apenas. Novamente: Lula não ganhou votos por si. Apenas herdou o desgaste de adversários incapazes de conduzirem as próprias narrativas.
Agora, o processo se inverteu, e pelo mesmo mecanismo. O presidente caiu porque decidiu tensionar o consenso em torno da segurança. No dia 24 de outubro, afirmou que “Traficantes são vítimas dos usuários”. A rejeição foi avassaladora: 81% discordaram, segundo a própria Quaest. No Rio, quase 60% dos eleitores afirmaram que Lula realmente pensa assim. É o tipo de frase que, num país traumatizado pela violência, não encontra abrigo nem entre petistas moderados.
Quatro dias depois, com a megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha, na capital fluminense, que deixou mais de 100 criminosos eliminados em confronto com as forças de segurança estaduais, o Planalto decidiu novamente se colocar na contramão da opinião pública. Lula classificou a ação como “matança” e pediu investigação federal. A maioria da população, porém, apoia a operação bem como o enfrentamento direto ao crime organizado. A dissonância custou caro.
Como no futebol
Zema, Tarcísio, Ratinho Junior e Eduardo Bolsonaro aparecem melhor nas pesquisas não porque tenham oferecido solução real para o tema – nenhum deles apresentou qualquer proposta consistente e apenas anunciaram um tal “Consórcio da Paz”. Eles apenas se beneficiam do erro de Lula e do PT. Ou seja, a oposição não subiu; Lula desceu. E o movimento é exatamente o mesmo que ocorreu meses antes, só que invertido. São os defeitos, e não os feitos, os catalisadores.
O eleitor vem percebendo a cena com relativa clareza e muito desconforto: ninguém está conquistando a confiança popular; todos estão a perdendo. É isso que explica o crescimento do grupo que prefere um nome fora do eixo Lula-Bolsonaro (cerca de 41% querem um “outsider”). Isso não é epifania cívica. É puro cansaço dessa mesmice inútil. O país está – há anos! – votando contra alguém e, agora, as pesquisas mostram que até o “voto útil” está perdendo sentido.
Lula segue líder, é verdade, mas uma liderança sustentada por erros do adversário, e não por suas virtudes. Já a oposição aparece novamente mais competitiva, mas não porque de fato representa uma alternativa, ou sopro de esperança, e sim, apenas, porque o governo resolveu acenar ao erro. O título acima diz tudo: as oscilações não se devem a feitos, mas a defeitos. Cada lado sobe quando o outro erra. Como se diz no futebol, jogam no erro do adversário.
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