Não eram bravatas: entenda o mundo após Trump reafirmar sandices

07.10.2026

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O Antagonista
Não eram bravatas: entenda o mundo após Trump reafirmar sandices
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Ricardo Kertzman
6 minutos de leitura 05.03.2025 15:11 comentários
Análise

Não eram bravatas: entenda o mundo após Trump reafirmar sandices

Estamos às portas de um “novo normal”, certamente pior, ainda que nos próximos quatro anos o “mundo não acabe”

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Ricardo Kertzman
6 minutos de leitura 05.03.2025 15:11 comentários 4
Não eram bravatas: entenda o mundo após Trump reafirmar sandices
JD Vance, Donald Trump e Mike Johnson.

Sou de uma geração que cresceu, sobretudo ao longo da infância e pré-adolescência, sob a égide da chamada Guerra Fria e a possibilidade de uma guerra nuclear apocalíptica. Por isso, mais que qualquer pessoa emocionalmente e psiquicamente – com o mesmo grau de conhecimento e cultura geral – similar a mim, mas de gerações seguintes, sou mais sensível, tenho mais receios e consigo compreender melhor a importância e o impacto das medidas tomadas por Donald Trump neste seu novo mandato.

Muito mais que surpreendente, é assustador este início de governo. Por tudo o que fez em seu primeiro mandato, Trump ficou associado a uma espécie de lunático – perigoso, sim -, mas com poder de destruição limitado. O presidente americano sempre ladrou mais do que mordeu, e até mesmo o infame episódio de 6 de janeiro de 2021 (a invasão do Capitólio), que deixou cinco mortos e dezenas de feridos, acabou relativizado com o tempo – talvez o maior erro e salvo conduto para tudo o que está acontecendo.

Porém, a realidade, hoje, é bastante diferente do passado, e Donald Trump não apenas vem cumprindo as promessas de campanha – que ninguém levou a sério, pois não deveriam mesmo ser levadas a sério – como vem entregando mais caos do que jamais foi possível imaginar. Ele e seu time de bilionários de sucesso empresarial, mas neófitos políticos e egocêntricos insuperáveis, implodem relações diplomáticas e comerciais de décadas e, de quebra, espalham incertezas ao redor do mundo.  

Tiro, porrada e bomba

De ameaças – concretas! – de anexação de territórios soberanos, como Canadá, Groenlândia e parte do Panamá (o canal), “De uma forma ou de outra” (palavras dele em pronunciamento no Congresso dos EUA na terça-feira, 4) a uma sociedade formal com a Rússia de Putin pela divisão territorial e econômica da Ucrânia, passando por quebras de acordos e contratos comerciais internacionais, Trump deu início a uma corrida armamentista inédita desde o fim da União Soviética, em 1991.

Além de tornar o mundo suscetível a novas guerras em curto e médio prazos, este senhor irá trazer mais inflação ao mundo (já crescente desde a pandemia do coronavírus), agravar exponencialmente a pobreza global (as verbas para auxílio humanitário serão desviadas para armas, o comércio mundial irá arrefecer, a produtividade mundial diminuirá e os preços, como dito, subirão bastante)  e aumentará também a chance de conflitos internos em diversos países já instáveis politicamente.

Nos Estados Unidos, inclusive, a tendência é de agravamento da divisão política social, haja vista os episódios inéditos de intolerância ocorridos durante o referido pronunciamento de Trump, quando parte dos democratas empunhou cartazes, virou as costas para o presidente, abandonou seus assentos e até mesmo um parlamentar, mais exaltado, foi retirado da sessão por tentar impedir o discurso presidencial. Tudo isso a partir de um único homem e um pequeno grupo ao seu redor.

Hipnose coletiva

Como judeu, por exemplo, e por ter trabalhado por mais de uma década em uma gigante multinacional alemã, conhecendo de perto o povo e a cultura daquele país, sempre me perguntei como Hitler pôde ter governado a Alemanha e o holocausto ter acontecido. Até 2022, a partir do que vi – e sofri – no Brasil, jamais havia entendido como catástrofes humanitárias históricas deste tipo poderiam ter acontecido. E não! Não estou comparando Trump a Hitler nem invocando o nazismo de forma leviana.

Quando pessoas amáveis, inteligentes, amigos de décadas começaram a me hostilizar, inclusive com ameaças de violência pelo meu combate ao golpismo – e antes, ao negacionismo – bolsonarista, comportando-se como os lulopetistas antes deles (porém, com mais virulência), atacando também os nordestinos, hostilizando e pedindo boicote àquele povo (como faziam os nazistas contra os judeus, antes do início da “solução final”), eu finalmente compreendi o conceito de “transe coletivo”.

Hoje, entendo bem como líderes autocratas populares, extremamente carismáticos e sagazes, capturam os sentimentos mais primitivos das massas, e as transformam em meios supostamente democráticos de “tomada de poder”, ato contínuo, referendando toda e qualquer decisão, por mais imoral que seja, em apoio incondicional a estes líderes, em luta tribal contra o que passaram a considerar como “inimigo mortal” (toda e qualquer forma de oposição), transformando nações em campos de batalhas fratricidas. 

Um mundo bem pior

Era inimaginável, para mim, um americano defender a aliança de Trump e Putin, muito menos em nome da América. Como é inacreditável ver um judeu apoiar a solução trumpista para Gaza, repetindo o mesmo modelo de expropriação do nosso povo, até a fundação de Israel. O sonho de uma humanidade em constante evolução, que me pareceu tão real e em curso a partir da globalização, da integração dos povos, da revolução tecnológica, da internet etc. era mera fantasia, ou “wishful thinking”, como dizem os americanos.

Estamos às portas de um “novo normal”, certamente pior. Ainda que nos próximos quatro anos o “mundo não acabe” e a catástrofe trumpista seja tamanha, que ele não faça seu sucessor – hoje, alguém potencialmente mais perigoso, seu vice J.D. Vence -, a destruição será tamanha que décadas serão necessárias para algum tipo de reconstrução, mas jamais restauração. O planeta, de até semana passada, jamais existirá outra vez. Nenhum país ficará novamente refém do outrora “líder do mundo livre”.

Japão, Coreia do Sul e outros países (inclusive o Irã, que já está) irão atrás de armas nucleares? Provavelmente. Taiwan, a própria Ucrânia e outros países ameaçados correm risco de anexação? Totalmente. A democracia americana, como muitos teóricos já previam há décadas, finalmente iniciou seu declínio? Talvez. Estou sendo, como antecipei no primeiro parágrafo desta coluna, catastrofista? Possivelmente. Aliás, se encontrarem uma falha na minha análise, ficarei feliz em saber. Dormirei melhor assim. 

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Ricardo Kertzman

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Comentários (4)

Jorge Irineu Hosang

05.03.2025 18:35

Lamentavelmente todo sabiam do alinhamento dele a Putin. Há uma investigação inclusive, que ligou vários membros do primeiro escalão do Governo Trump aos russos, desde seu primeiro mandato. Seus passos não são em favor da paz, e sim a favor de desestabilizar o Planeta e facilitar a ocorrência de uma expansão territorial russa e, talvez até americana. Trump sempre foi um impostor, pior do que isso, sempre se aproveitou no enriquecimento ilícito, independente de quando estava ou não na Casa Branca. Os EUA estão sendo governados pela Rússia. E todos estão batendo palmas, porque grande parte dos incautos, amam a lacração de Trump e de Musk. O tal do "You are fired!!" mostra o estilo truculento de quem desonra tudo que os EUA criaram e defenderam ao longo dos últimos mais de 100 anos, da soberania dos países, dos organismos internacionais, a defesa da propriedade privada e do livre mercado. Ele, infelizmente, não será contido pela Sociedade Americana, nem pelos Políticos dos EUA, isso virá de dentro do próprio Estado Americano (não do Governo, que sejamos claros). É notório, um Populista só ascende ao posto de tirano, porque são idolatrados por uma horda de estúpidos que sustenta essa sandice!! Ele age como Nero, considerando o próprio EUA sua Roma e espera que todo o império, arda junto em chamas. O mundo assiste a uma lamentável performance de um delinquente sentado na cadeira mais poderosa do mundo, cheio de botões às suas mãos, que tal qual no cinema, com o Sr. Gru e seu bando de Minions pulam e se refestelam alegremente a cada maldade que ele apronta.


Daniela_RS

05.03.2025 16:26

Excelente texto! Não sei até onde Trump está disposto a levar a execução de seus planos, mas certamente eles já estão levando a uma nova corrida armamentista e podem fazer uma divisão do planeta em zonas de influência dos "fortes": EUA, China e Rússia. Se Trump não viver o suficiente para se arrepender do que está fazendo ou se, em hipótese otimista, não retroceder, os republicanos mais jovens certamente terão que carregar arrependimento e vergonha por haverem deixado Trump tomar conta de seu partido.


Guilherme Rios Oliveira

05.03.2025 16:15

O pior, é que não há falha na sua análise!!!


Gilberto

05.03.2025 15:27

Ótimo texto!


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