Na “nova” CBF, nada se cria. Tudo se copia
A “nova CBF” já nasce com as digitais da velha. Uma entidade impermeável à renovação, blindada pelo compadrio e movida a bastidores opacos
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) atravessa mais uma crise institucional. Até aí, nada de novo. Irá eleger o quinto presidente em dez anos. E, como de costume, ninguém se espanta. Disputas judiciais, manobras políticas e uma eleição com resultado já conhecido antes mesmo do primeiro voto: a chamada “nova CBF” já nasce com o cheiro rançoso da velha: mofada, blindada e intocável.
O epicentro do atual terremoto tem nome: Ednaldo Rodrigues. Em janeiro de 2024, após muita treta interna e disputas judiciais, ele foi reconduzido ao cargo por graça e ordem de ninguém menos que Gilmar Mendes, ministro do do Supremo Tribunal Federal (STF). Nada fora do padrão, portanto. Afinal, quando o futebol brasileiro se vê atolado também em insegurança jurídica, basta chamar Brasília.
Mas a blindagem não resistiu à artilharia pesada contrária. Em maio de 2025, vieram à tona indícios de falsificação da assinatura do ex-presidente Coronel Nunes em um acordo que dava sustentação à permanência de Ednaldo no cargo. A caneta de Gilmar, desta vez, não ousou assinar o salvo-conduto, e diante do escândalo, mandou o caso de volta para o TJ-RJ, que determinou o afastamento definitivo do cartola.
Eleições, democracia?
Encurralado, Ednaldo ainda pensou em barrar seu afastamento e a futura eleição, como qualquer bom sobrevivente do pântano político que é a CBF. Mas, poucos dias depois, recuou. Desistiu do recurso no STF e anunciou que não tentaria voltar ao cargo. A desculpa foi das mais clássicas: “restaurar a paz” e “proteger a família”. Faltou apenas o “agradeço a Deus, ao povo brasileiro e à minha esposa o apoio.”
Com o caminho pavimentado e sem resistência, a nova eleição na entidade foi marcada para o dia 25 de maio. O prazo para registro das chapas terminou em 20 de maio, e – surpresa nenhuma! – só uma candidatura foi registrada. Samir Xaud, médico e presidente da “poderosíssima” Federação de Futebol de Roraima, virou o candidato único, com o apoio de 25 das 27 federações e de 10 clubes das Séries A e B.
Como se percebe, mais um desfile de aclamação disfarçado de processo democrático. O futebol brasileiro continua escrevendo seu roteiro de sempre, mas com uma novidade: a força de Gilmar Mendes. A velocidade com que Xaud foi alçado à condição de salvador da pátria não foi espontânea. Segundo bastidores, foi o próprio ministro do Supremo quem sugeriu o nome do roraimense, após a queda de Ednaldo.
Um museu de grandes novidades
Tudo, obviamente, devidamente articulado com o núcleo duro da bola: federações que mandam mais do que clubes, cartolas que se revezam em cargos e vice-presidências que servem mais para blindar do que para reformar. Na chapa de Xaud, destaque para Fernando Sarney, atual interventor da CBF e herdeiro da oligarquia política mais longeva do país, e Michelle Ramalho, a primeira mulher a ocupar uma das vice-presidências.
Samir Xaud fala em “transparência, inclusão e modernização”. O tripé da retórica messiânica cartorial. Mas o contexto insiste em mostrar outra coisa: uma eleição sem oposição, clubes como sempre engessados, federações mandando e desmandando. A “nova CBF” já nasce com as digitais da velha. Uma entidade impermeável à renovação, blindada pelo compadrio e movida a bastidores opacos.
A promessa é de que a entidade se dedicará à Seleção Brasileira e ao calendário do futebol nacional. Caberá aos clubes a organização dos campeonatos através de suas ligas e a tão sonhada profissionalização da arbitragem. Em tempo: “pênalti para o Palmeiras”. Ou para o Flamengo, tanto faz. Na CBF, como no país que ela representa tão bem, nada se cria. Tudo se copia. E se repete. Até a exaustão.
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