Musk e Trump: o prejuízo bate à porta, o amor sai pela janela
Enquanto os bilionários disputam quem tem o maior ego, os acionistas perdem bilhões e os americanos ficam à deriva
O rompimento entre Elon Musk e Donald Trump é um caso clássico de colapso de uma aliança baseada em interesses mútuos e egos inflados. Sob a ótica da psicanálise, especialmente das teorias de Freud e Lacan, podemos entender esse conflito como uma manifestação de narcisismo e rivalidade edípica. É o tipo de divórcio que Freud explicaria com o cachimbo na mão e Lacan traduziria em francês: dois sujeitos que se viam no espelho, até que um quebrou o vidro.
Inicialmente, Musk e Trump formaram uma aliança baseada na admiração mútua e na busca por poder. Musk apoiou financeiramente a campanha de Trump em 2024, contribuindo com cerca de US$ 300 milhões, e foi nomeado para liderar o Departamento de Eficiência Governamental – o tal DOGE. Essa relação pode ser vista como uma extensão do narcisismo de ambos, onde cada um via no outro uma imagem idealizada de si mesmo, afinal, “de gênio e louco, todo mundo tem um pouco.”
Ou seja, um precisava do brilho midiático do outro para manter o próprio ego inflado – além, obviamente, do fluxo de caixa bilionário correndo em sentido mútuo. Trump ganhou um “gênio da tecnologia” para legitimar suas promessas futuristas; Musk ganhou um “chefe de Estado” para brincar de czar tecnocrata com verba pública. Parecia amor, mas era apenas endosso mútuo e o velho “eu finjo que acredito em você, se você fingir que me respeita”. Tinha tudo para dar M, e deu.
O pau cantou
No mundo real, porém, longe dessa “filosofia de botequim” que tanto gosto, um dito popular explica ainda melhor a briga dos compadres: “quando a falta de dinheiro bate à porta, o amor sai pela janela”. Não que alguém ali esteja preocupado com boletos. Não é nada disso, claro. Mas, desde que se meteu a burocrata de lunático, o empreendedor visionário viu seu cofrinho esvaziar significativamente. Foram centenas – sim, centenas! – de bilhões de dólares que escorreram ralo afora.
A ruptura começou quando Musk criticou o projeto de lei de Trump, conhecido como One Big Beautiful Bill Act, chamando-o de “Abominação nojenta” e alegando que não teve acesso ao conteúdo do projeto antes de sua aprovação. Trump, magoadinho, respondeu com ataques pessoais, ameaçando cortar subsídios e contratos governamentais das empresas de Musk. Aqui, a psicanálise, digo minha filosofia de botequim, não precisa de divã: basta um espelho e dois megafones.
Musk, ao se sentir traído, devolve a “paternidade simbólica” que Trump crê exercer. E o bufão alaranjado, ao ser contrariado, faz o de sempre: age como criança birrenta – mas com um orçamento nuclear nas mãos. No fundo, é a velha disputa edípica: quem é o pai, quem é o filho e quem manda no brinquedo. Nesse caso, o brinquedo são bilhões de dólares e contratos com o Estado. Pequenos grandes detalhes explosivos. Mais uma vez: se o prejuízo bate à porta, o amor foge pela janela.
Escalada planetária
Musk intensificou o conflito ao sugerir que Trump estaria envolvido nos apocalípticos arquivos de Jeffrey Epstein. O interessante é que essa ação, caso seja apenas especulação e não realidade, pode ser interpretada como uma “projeção”, onde Musk atribui a Trump características negativas que ele próprio não reconhece em si. Além disso, o dono do X reforça sua tendência destrutiva, buscando sabotar não apenas a relação com Donald Trump, mas também suas – em tese – próprias convicções.
E aí entra Lacan em versão Twitter: o sujeito se identifica com o objeto de sua revolta e, ao não suportar o espelho rachado, prefere destruir a moldura. Musk, no fundo, não está xingando Trump, está gritando com a própria projeção falida. Aquele “poder político disruptivo” que achava que podia controlar como um foguete da sua SpaceX saiu da órbita e agora ameaça cair sobre sua cabeça. Pior. Cair sobre sua conta bancária, para além do estrago que já causou. As ações da Tesla que o digam.
O conflito resultou em perdas significativas para todos. Musk viu pulverizada parte de sua fortuna e Trump perdeu um aliado poderoso e midiático. Mas, como sempre, o estrago também atingiu “os mortais”. Enquanto os bilionários disputam quem tem o maior ego, os acionistas perdem bilhões e os americanos ficam à deriva. Dois homens que não aceitam ser contrariados, que exigem fidelidade incondicional e que, diante da menor fissura partem para a guerra total, jamais poderiam ter ocupado, simultaneamente, a casa Branca.
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Comentários (2)
Um_velho_na_janela
07.06.2025 12:01Uma abordagem interessante do Ricardo, apoiada na psicologia, do conflito de dois narcisistas egomaníaco obsessivos querendo ocupar o mesmo espaço no poder e no cofre, duas aberrações humanas em liberdade condicional fora do hospício e da cadeia.
Joaquim Arino Durán
06.06.2025 15:09Não deveriam ocupar simultaneamente o planeta.