Mudança no milho encareceu o almoço dos brasileiros
Os culpados não são apenas a inflação ou o clima, mas uma mudança profunda no coração do agronegócio global
Por Guto Gioielli*
Se você sente saudade da época em que a saca de milho custava menos de vinte reais no Brasil, temos uma péssima notícia: esse passado ficou para trás. E os culpados não são apenas a inflação ou o clima, mas uma mudança profunda no coração do agronegócio global.
Olhar para a série histórica de preços do Indicador do Milho Cepea/Esalq desde 2004 é quase como fazer um raio-x da economia brasileira nas últimas duas décadas.
Em março de 2006, o mercado físico atingiu seu menor nível histórico: 13,32 reais por saca. Corrigido pelo IPCA, isso equivaleria hoje a algo perto de 39,34 reais.
Mas onde está o preço do milho agora? Confortavelmente instalado na faixa entre 60 reias e 70 reais por saca.
Novo piso
Na prática, o mercado brasileiro criou um novo piso para o milho.
Aquela realidade dos anos 2000 — quando havia excesso de oferta, problemas logísticos e preços deprimidos — foi atropelada por dois movimentos que mudaram completamente o setor.
O primeiro deles é o avanço do etanol de milho. O Centro-Oeste descobriu que transformar o grão em combustível dentro da própria região era muito mais rentável do que apenas mandar caminhões até os portos. As usinas cresceram rapidamente e criaram uma demanda interna gigantesca, capaz de absorver boa parte da safrinha e evitar o colapso dos preços no segundo semestre.
O segundo fator é a consolidação do Brasil como uma potência global na produção de proteína animal. O milho virou peça central da cadeia de aves, suínos e do confinamento bovino que abastece mercados da Europa à China.
Isso fez o grão brasileiro entrar definitivamente na lógica internacional de preços, acompanhando tanto a Bolsa de Chicago quanto o dólar. Quando a moeda americana sobe, o milho aqui dentro sente imediatamente.
O patamar mudou
Para quem trabalha na indústria de ração ou acompanha o mercado de perto, a sazonalidade ainda importa. Junho e julho continuam sendo, historicamente, os meses de preços mais baixos por causa da entrada da safrinha. Já o fim do ano costuma pressionar as cotações durante a entressafra.
Mas o ponto principal é outro: o patamar mudou.
A mínima histórica de 2006, corrigida pela inflação, seria hoje de cerca de 39 reais. O mercado atual opera quase 30 reais acima disso, mostrando que o milho encontrou um novo nível de preço no Brasil.
O pico nominal de 103 reais registrado em 2021, durante a pandemia, pode até ter ficado para trás. Mas quem ainda faz conta esperando um retorno para os trinta e poucos reais provavelmente está olhando para um mercado que já não existe mais.
O milho mudou de patamar. E junto com ele mudou também a estrutura de custos da carne, do leite, dos ovos e, no fim da cadeia, da comida que chega à mesa do brasileiro.
*Guto Gioielli é analista de investimentos (CNPI) e fundador do Portal das Commodities.
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