Masterclass de fake news com André Janones
Deputado federal lulista deu aula de como desinformar nas redes sociais em evento do PT, e nenhum ministro do STF indicou qualquer incômodo
Após firmar um acordo de não persecução penal com a Procuradoria Geral da República (PGR) por causa de um esquema de rachadinha em seu gabinete e se salvar da cassação do mandato com a ajuda de Guilherme Boulos, o deputado federal André Janones (Avante-MG, foto) segue útil para o governo Lula e deu ao PT aquilo que de melhor tem a oferecer: uma masterclass de fake news.
“Para salvar a democracia neste país… Antes eu dizia que valia quase tudo. Eu mudei o meu discurso nestes quatro anos. Hoje, para mim, vale tudo para salvar a democracia deste país”, discursou o deputado no evento Porta-voz do Lula, feito para mobilizar a militância nas redes.
Pela aula de fake news dada pelo deputado, pelo jeito vale até subverter a democracia para salvar a democracia, e não se viu até agora nenhum ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), tão preocupados com desinformação, demonstrar incômodo com as instruções de Janones.
“Desviar o foco”
O deputado deu como exemplo de atuação nas redes sociais dois episódios em que desinformou deliberadamente durante a campanha presidencial de 2022, para “desviar o foco”, mas disse que não mentiu em nenhum dos dois casos — essa é a definição clássica de fake news.
“Desviar o foco, gente, não é mentir, não. É você contar uma outra história, com a outra visão. Por exemplo, quando eu digo que foi um sucesso, que eu levei a capivara do Flávio Bolsonaro [em viagem para os Estados Unidos], e o lado de lá fala que nós não fomos recebidos, que nós fomos ridicularizados, que viramos meme, nenhum lado está mentindo. São pontos de vista. Você pode enxergar que a missão foi um fiasco, você pode enxergar que foi um sucesso”, disse Janones aos militantes do PT, em referência à comitiva lulista que ele liderou aos Estados Unidos.
“Eu tinha um celular que me foi passado por uma pessoa que coordenou a campanha do Bolsonaro em 2018 e que era então meu aliado. E, nesse celular, tinha conteúdos do celular do [falecido ex-ministro de Jair Bolsonaro, Gustavo] Bebianno. Imagens de bastidores que ninguém nunca tinha visto. Então, eu tinha mesmo esse conteúdo. Eu fui na rede social e falei: ‘Olha, recebi os conteúdos do celular do Bebianno e vou soltar a qualquer momento”, lembrou Janones.
Celular de Bebianno
Na época, Janones, que se elegera em 2018 como crítico de Lula e abandonou sua pré-candidatura presidencial em 2022 para apoiar o petista, atuava como coordenador digital da campanha lulista.
“Mortos não falam, mas os celulares deles sim! Lembra desse dia Carlinha? Lembra o que foi falado aqui?”, disse o deputado federal em postagem, endereçando a publicação à então deputada Carla Zambelli. “Isso aqui é só o frame de um vídeo, e de onde saiu esse tem muito mais! Apenas aguarde! HAVERÁ CHORO E RANGER DE DENTES!”, acrescentou Janones.
Bebianno atuou como ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência e foi demitido em abril de 2019. Ele foi um dos primeiros integrantes do governo a romper com Bolsonaro.
Antes de morrer, Bebianno disse ter guardado um material, “inclusive fora do Brasil”, para ser usado caso algo ocorresse com ele. O suposto conteúdo relacionado ao presidente da República estaria no celular do ex-ministro, que foi usado por Janones para desinformar.
“Isso tomou conta da internet, desviou o foco, eles tremeram tudo (sic). Não era uma mentira, eu tinha o conteúdo, era o Bebianno servindo água para o Bolsonaro, conversa de bastidor, não tinha nada de mais, mas eu não falei que tinha algo de mais. Eles deduziram isso, [por]que eles deviam, né? E, se quem não deve, não teme, quem deve, teme”, disse Janones em sua aula.
Quando o deputado admite que deliberadamente deu a entender algo que não era verdade, está configurada a fake news. E Janones deu ainda um segundo exemplo da mesma campanha.
Collor e Bolsonaro
Tomando todo o cuidado para não melindrar os petistas por causa do ex-ministro José Dirceu, condenado pelo esquema do mensalão, Janones contou outra fake news emblemática.
“E, para finalizar, uma segunda história, também com o mesmo objetivo. Bolsonaro deu uma coletiva lá no Palácio do Planalto. Gritou, xingou, foi naquela [em] que ele estava com o [apresentador José Luiz] Datena o Gusttavo Lima, o Leonardo. E, aí, começou a ofender o Lula. E, na tentativa de desqualificar o presidente, ele —e aqui, com todo o respeito que eu tenho ao Zé Dirceu, à história dele, a tudo que ele fez, ao que ele representou e continua representando para o Partido dos Trabalhadores e para a esquerda deste país, mas, dentro daquele contexto, da maneira que foi colocado, eles quiseram linkar o Zé como um símbolo de corrupção para dizer: ‘Olha, o Lula vai nomear corruptos como ministro'”, relatou o deputado, seguindo:
“Eu não vou entrar na defesa dos Zé Dirceu. Não vou entrar na pauta deles. Eu mudei a pauta. Eu estava no hotel, liguei para meus assessores, falei: ‘Imprime para mim, acha aí no Google, as imagens do Bolsonaro com o [ex-presidente e ex-senador Fernando] Collor. Imprime colorido, para aparecer foto.’ Me entregaram em cinco minutos. Eu abri uma live, falei: ‘Urgente, consegui aqui, exclusiva, as fotos que comprovam a ligação do Bolsonaro com o Collor. Está (sic) aqui as fotos, e, se o Bolsonaro for reeleito presidente, ele poderá nomear o Collor ministro’. E poderia mesmo. Não tem nada que impedia o Collor. Estava com os direitos políticos dele ativo (sic). Ele poderia ser nomeado. Então não era uma mentira. O caso deles é uma mentira, porque eles não falaram que poderia nomear, eles afirmam que vai nomear.”
Alcance
Janones desinformou tanto naquela campanha que acabou sendo retirado da posição de coordenador digital. Mas ele sempre volta, e agora o fez para dar aula de desinformação.
O deputado celebrou, durante sua intervenção no evento petista, que o material publicado sobre a missão lulista aos Estados Unidos para “defender o Pix” obteve 30 milhões de visualizações nas redes sociais, “somando todas as redes” de todos os parlamentares envolvidos.
O resultado é mais ou menos o que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) consegue apenas em seu perfil no Instagram com um único vídeo duas ou três vezes por semana.
Para aumentar o alcance de seus conteúdos, Janones tem duas opções opostas: ou capricha mais na desinformação ou talvez seja o caso de passar a falar a verdade nas redes sociais.
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