Mario Vargas Llosa, um escritor que sobreviveu ao engajamento
Escritor, prêmio Nobel de literatura, engajou-se nas discussões de seu tempo e deixou literatura incontornável
Ao saber da notícia da morte de Mario Vargas Llosa, aos 89 anos, e já prevendo o que diriam os obituários semiprontos à espera do cadáver célebre que lhes daria vida, me lembrei da tirada de Woody Allen sobre a ideia de ser imortalizado pela própria obra: “Não quero alcançar a imortalidade pelo meu humor. Quero alcançar a imortalidade não morrendo”.
Até segunda ordem, não temos essa opção. Se o que sobra de Vargas Llosa é sua obra, os muitos romances, contos e novelas que escreveu, ele tem um lugarzinho reservado no apertado estacionamento da imortalidade. Mas é fato que ele correu – e aceitou correr – os riscos do esquecimento.
Escritor que cumpria bem o papel de intelectual público, candidato à presidência do Peru e derrotado por Alberto Fujimori, seu engajamento às vezes lembrava o do filósofo e romancista francês Jean-Paul Sarte, uma de suas primeiras admirações, cuja vida se misturou à política de tal modo que inviabilizou a leitura de certos textos, reféns de um didatismo irritante. Llosa passou raspando no teste, mas passou.
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Entusiasta da Revolução Cubana em seus primeiros anos, resoluto liberal em todos os anos seguintes, o vencedor do Nobel de literatura de 2010 nunca se esquivou do debate político e do posicionamento ideológico. Acreditou, como Sartre, que a dedicação à literatura não justificava a má-fé na existência. Quando achou que devia participar, participou.
Acusado pelos progressistas de ser “ultradireitista” – e quem não é acusado de ser “ultradireitista” pelos progressistas? –, foi um dos últimos grandes escritores que tinham uma “visão de mundo”, que não se continha em discussões setoriais. Ele acreditava (desconfiando) nas grandes narrativas políticas, herança dos embates do século 20.
Mas isso tudo agora são círculos deixados por um Peixe na Água (leiam este livro de memórias; vale muito a pena). Morto o homem, morrem com ele as agitações ideológicas, as adesões controversas, o anedótico soco em Gabriel García Márquez, a memória do boom da literatura latino-americana, as opiniões mais ou menos datadas, as preferências circunscritas ao seu tempo, ao nosso tempo.
Ao saber da notícia da morte de Mário Vargas Llosa, aos 89 anos, e já prevendo o que diriam os obituários semiprontos à espera do cadáver célebre que lhes daria vida, me lembrei da tirada de Woody Allen sobre a ideia de ser imortalizado pela própria obra.
O que é que se pode fazer? Vargas Llosa morreu, mas A Cidade e os Cachorros (1963), Conversa na Catedral (1969), Tia Julia e o Escrevinhador (1977), A Guerra do Fim do Mundo (1981) e A Festa do Bode (2000) não morrem nunca mais.
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