Lula vai usar 4º mandato para lustrar seu mito
Não esperem novidades: em seu último governo, petista deve dar prioridade à consolidação do legado pessoal
Lula terá 85 anos ao concluir seu quarto mandato, em 2030. Pode-se dizer, com boa margem de segurança, que não disputará mais eleições majoritárias. Teria de esperar até 2034 para concorrer novamente e estaria com quase 90 anos. O governo que se inicia em 2027 é, portanto, o encerramento da carreira política do presidente petista.
Esse é um fator que deve ser levado em conta nas tentativas de prever como Lula vai conduzir seu mandato.
Ele esteve muito próximo de perder a disputa para Flávio Bolsonaro, por quem demonstrou ter desprezo. Disse que se sentiu desconfortável nos debates em que enfrentou “um miliciano”.
A derrota teria sido um desfecho humilhante para a sua trajetória, no entender do próprio Lula. A virada deu a ele a chance de escrever um capítulo final em seu próprios termos.
Isso sugere que o pragmatismo vai ter de conviver com o desejo de lustrar a biografia. Como dizia Aristóteles, só é possível concluir se uma vida foi feliz ou infeliz depois do seu encerramento. O final dá sentido ao que veio antes.
O que isso pode significar, na prática?
Desejo de aclamação
Primeiro, Lula vai governar pensando em aclamação, não em fazer sucessor. Se depois dele vier o dilúvio, que seja.
Isso significa adotar medidas consistentes com sua história política. Por exemplo, ele não fará um ajuste fiscal rigoroso. Deve tentar ampliar receitas, como fez no terceiro mandato, e pode comprar batalhas como o fim dos supersalários do funcionalismo.
Mas não vai bancar medidas como desvincular gastos previdenciários e assistenciais do salário mínimo ou desfazer os pisos obrigatórios de investimento em saúde e educação, mesmo que esses mecanismos estejam entre os principais responsáveis pela rigidez das despesas públicas e pelas dificuldades do ajuste fiscal. Nada que interfira em direitos sociais.
Autopreservação
Em segundo lugar, a autopreservação será prioridade absoluta no trato com o Congresso e com o meio político de maneira geral.
Lula vai abrir tanto espaço quanto seja necessário em seu governo para garantir que a direita, fortalecida nas eleições, não tenha musculatura para tentar abreviar seu mandato.
Não deve ir muito além disso. Se desprezou a frente ampla que o ajudou a chegar ao Planalto em 2022, não tem incentivos para contemplá-la agora. Muito pelo contrário.
A experiência com o Exército do Lula, capitaneado por André Janones, parece ter revelado ao presidente o caminho para governar no estilo populista que lhe agrada.
Ele disse isso logo depois da vitória: “Vamos mudar o jeito de governar, vamos fazer o povo participar mais.”
Áulicos
Na montagem da Esplanada, isso sugere que o caminho adotado no terceiro mandato vai continuar. Haverá distribuição de ministérios para partidos do Centrão, mas eles não terão participação direta nas decisões mais importantes do governo.
Lula vai se manter cercado de áulicos do PT. E não se deve imaginar que ministros petistas tenham carta branca.
Pode até ser que o governador do Piauí, Rafael Fonteles, seja convidado a ocupar o Ministério da Fazenda. Mas não se espere que Lula o defenda do fogo amigo que já começa a ser disparado das trincheiras do partido. Há quem considere o estilo de Fonteles “fiscalista” em excesso.
Outras nomeações aventadas são compatíveis com essas hipóteses.
Especulações
Camilo Santana ganhou força para assumir a Casa Civil depois de seu protagonismo na campanha do segundo turno. É um quadro de confiança de Lula, com experiência administrativa e trajetória construída dentro do PT. Sua escolha preservaria o controle do núcleo político do governo nas mãos do partido.
Geraldo Alckmin também é mencionado para a Fazenda. Sua indicação poderia funcionar como aceno ao empresariado e ao mercado financeiro, sem representar uma mudança na orientação econômica definida pelo presidente.
Fernando Haddad, derrotado na disputa pelo governo paulista, continua sendo lembrado para o primeiro escalão. O mesmo ocorre com Gleisi Hoffmann, que não conseguiu se eleger senadora. A acomodação de antigos auxiliares preservaria o círculo de confiança de Lula, sem contribuir para renovação.
Para a articulação política, cogita-se Silvio Costa Filho, do Republicanos. Seria uma concessão ao Centrão, embora setores do PT resistam à entrega de uma pasta que participa das negociações sobre emendas parlamentares.
Problema dos outros
Lula ainda não iniciou as sondagens individuais para compor seu ministério. Tudo o que se disser sobre o desenho de seu futuro governo é especulação, inclusive o que vai neste artigo.
Mas as hipóteses partem de uma premissa lógica, embora possam se mostrar erradas.
Lula é vaidoso e jamais permitiu que outras lideranças lhe fizessem sombra dentro do PT. Nos próximos quatro anos, não terá interesse maior do que pôr seu mito a salvo de contestações: o homem que veio de baixo, chegou à Presidência e, mesmo assim, governou para o povo. O que vier depois, não será problema dele.
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