Flávio implode o bolsonarismo
Carta desastrada em que se autoproclamou presidente e se comparou a figuras históricas abre a porta para a debandada de aliados
Flávio Bolsonaro ganhou de Alexandre de Moraes a oportunidade de se fazer de vítima, e a jogou fora ao se autoproclamar presidente eleito do Brasil em carta publicada dos Estados Unidos.
A bobagem foi reconhecida com a publicação de outra versão da mensagem, atualizada junto com a correção do brasão da República, na qual o título de “presidente eleito” foi substituído por “líder”.
A campanha de Lula foi de fato desleal, usou a máquina pública como nunca antes e ainda contou com o auxílio de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), porque o golpismo faz parte da política brasileira, muito além do bolsonarismo, como se costuma alegar.
Mas a campanha de Flávio praticamente não questionou formalmente o jogo sujo de Lula, como o reajuste do Bolsa Família e a aprovação da redução da escala 6×1, por medo de perder votos.
Os bolsonaristas enfraqueceram até o questionamento do malicioso adiamento do fechamento das urnas em duas horas, determinado pelo ministro Cristiano Zanin, ao fazer um pedido parecido ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para cidades afetadas pelas chuvas.
Vilão
Por mais que a eleição tenha decorrido com um claro desequilíbrio em favor do petista — e, ironicamente, seus aliados no STF querem dar a entender que o beneficiado teria sido Flávio —, o derrotado precisa fazer o jogo político de maneira minimamente hábil para não soar como vilão.
É exatamente o contrário do que o filho 01 de Jair Bolsonaro (a cabeça do boneco na foto) fez ao reivindicar a Presidência, com o requinte de se comparar a figuras histórias cujas reputações e valor histórico apenas diminuem o tamanho do senador derrotado, ao contrário do que se pretendia.
No limite, a fuga para os Estados Unidos é compreensível, porque seu pai e seu irmão já foram condenados pelo mesmo juiz que o obrigou a entregar os passaportes, no prenúncio do que viria a ser sua própria prisão. Não é possível encarar Moraes como um ator desinteressado nesse caso.
Mas esse discurso foi inviabilizado por uma carta desastrada.
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Implosão
O ministro do STF mais enrolado no caso do Banco Master atua para se defender de um processo de impeachment, e parecia buscar Flávio como refém para negociar com a bancada bolsonarista.
É de se questionar, agora, contudo, o que restou dessa bancada bolsonarista. O passo em falso de Flávio — mais um entre tantos ao longo de sua caminhada presidencial — se apresentou como ensejo para que aliados históricos começassem a se afastar.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), confrontou a carta do senador e já admitiu que pode ser candidato a presidente em 2030, rompendo as amarras do bolsonarismo.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), também questionou a tentativa de Flávio de se impor como “presidente eleito”, e a deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), que já tinha se insurgido contra os comandos dos filhos de Bolsonaro, cobrou autocrítica da direita.
O pastor Silas Malafaia chamou os filhos do ex-presidente de “jumentos”. Claramente constrangido, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha de Flávio e almeja a Presidência do Senado, tenta se equilibrar entre o discurso delirante do aliado e a realidade.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, grande esperança bolsonarista, disse que não vai se envolver. Flávio só vale para ele como espantalho para as eleições legislativas americanas.
Futuro
Está claro que a família não abrirá mão do poder que conseguiu nos últimos anos, e é possível que consiga se impôr de alguma forma no próximo ciclo eleitoral. Mas isso se tornou ainda mais improvável depois da derrota de domingo, 25, e da carta publicada três dias depois.
A perspectiva de aposentadoria de Lula também não ajuda a família Bolsonaro, pois um se alimenta do outro, como ocorreu nesta eleição, que o petista ganhou mesmo com um governo impopular.
Os Bolsonaros dependerão de erros de seus adversários para solucionar os próprios equívocos e conseguir sobreviver, mas principalmente da capacidade de aproveitar esses erros — o que não ocorreu agora, no caso da açodada decisão de apreender os passaportes do senador.
A derrota nas urnas corroborou a impressão de que Flávio, cuja candidatura foi imposta pelo pai, não era a melhor opção contra Lula. Pode ser que Tarcísio também não tivesse sobrevivido à máquina de campanha petista e ao assédio eleitoral dos ministros do STF, mas essa dúvida é um entre os vários elementos que jogarão nos próximos anos contra a capacidade da família Bolsonaro de mandar.
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