Ex-tucano faz música para ouvidos petistas

03.11.2026

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O Antagonista
Ex-tucano faz música para ouvidos petistas
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Carlos Graieb
5 minutos de leitura 03.11.2026 13:13 comentários
Análise

Ex-tucano faz música para ouvidos petistas

André Lara Resende diz que juros do BC e não gastança do governo são o motor dos problemas da economia brasileira

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Carlos Graieb
5 minutos de leitura 03.11.2026 13:13 comentários 0
Ex-tucano faz música para ouvidos petistas
Foto: Reprodução

Virou um ciclo. A cada nova eleição presidencial, as ideias do economista André Lara Resende se valorizam na esquerda.

Foi assim em 2022, quando circulou a notícia de que ele, um dos formuladores do Plano Real, poderia participar de um eventual governo Lula 3.

Resende havia publicado um livro e uma série de artigos com teses revolucionárias. Entre elas, a de que o Banco Central deveria ter mandato para financiar o Tesouro, evitando a busca de recursos no mercado, o que aumenta a dívida pública. Isso ampliaria quase ao infinito a capacidade de gasto do Estado.

Nos últimos dias, especulou-se sobre o ingresso do ex-tucano no governo Lula 4. Desta vez, a proposta de Resende envolve criar algo como uma banda para a taxa de juros — tal como existe uma banda para as metas de inflação —, que seria gerida por um conselho fiscal e monetário, e não mais pelo BC.

Isso permitiria baixar rapidamente a Selic, hoje em níveis siderais, como é consenso entre todos. Segundo o autor, os juros elevados são os principais responsáveis pelos problemas fiscais brasileiros. Na verdade, os únicos responsáveis.

Como se sabe, afrouxar os vínculos entre a trajetória crescente da dívida pública e os gastos governamentais soa como música de Chico Buarque para ouvidos petistas.

Reações

A possibilidade de uma reunião entre Lara Resende e Lula provocou apreensão no mercado financeiro. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que houvesse encontro marcado ou que a proposta estivesse em discussão no governo. Classificou-a como incipiente e apontou deficiências.

Isso não impediu manifestações entusiasmadas de petistas. Gleisi Hoffmann considerou o artigo de Resende fundamental para enfrentar o que chamou de ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira. José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, também elogiou suas ideias.

Economistas ouvidos pela imprensa apresentaram uma série de objeções. Entre elas, o risco de enfraquecimento da autonomia do Banco Central, a alta das expectativas de inflação, a disparada dos juros de longo prazo e a possibilidade de que intervenções cambiais consumam as reservas internacionais.

Não sou economista e não tenho competência para avaliar de maneira aprofundada as bases do modelo desenvolvido por Lara Resende. Mas li tanto seu artigo quanto os textos do economista americano John Cochrane, em quem ele se apoia. Sou competente o bastante para identificar o perigo político da estratégia proposta com tanta convicção.

Pontos cegos

Ao contrário do que disse parte da imprensa, não é que Resende proponha um simples “tabelamento de juros”. Essa é uma formulação injusta. Sua proposta é mais sutil e procura estabelecer uma nova forma de coordenação entre as políticas fiscal e monetária.

O perigo está em seus pontos cegos, em dificuldades que não foram suficientemente elucidadas.

Algumas delas são reconhecidas pelo próprio Cochrane. O americano é muito mais cauteloso ao passar dos modelos para as recomendações de política econômica.

Teoria

O raciocínio de Cochrane pode ser apresentado de maneira simplificada. No longo prazo, juros nominais mais altos estão associados a inflação mais alta, e não mais baixa. Isso significa que manter os juros elevados indefinidamente não é necessariamente uma receita para assegurar a estabilidade dos preços.

O problema está na transição. Uma redução dos juros tende a provocar, de fato, uma alta inicial da inflação, embora o equilíbrio de longo prazo aponte na direção contrária. Cochrane procura explicar por que isso acontece e em quais condições a economia pode convergir para um novo equilíbrio, mais saudável.

Lara Resende transporta esse raciocínio para o Brasil e acrescenta duas considerações importantes. A primeira é que boa parte da dívida pública brasileira está vinculada à Selic, de modo que a redução dos juros produziria uma economia fiscal imediata. A segunda é que o país dispõe de reservas internacionais para enfrentar uma eventual desvalorização cambial e suas consequências inflacionárias.

A partir daí, propõe reduzir a Selic para 7,5% em um ano e, posteriormente, mantê-la numa faixa entre 3% e 5,5%. A trajetória seria definida dentro de um novo arranjo institucional, que coordenaria as políticas fiscal e monetária.

Questões em aberto

Cochrane reconhece que há questões teóricas importantes ainda em aberto.

Uma, já mencionada, diz respeito aos mecanismos responsáveis pela inflação no curto prazo. Ele diz que não testou todas as variáveis, além dos juros, que poderiam influir nesse resultado. “Não saberemos realmente enquanto esses modelos alternativos não forem construídos”, diz.

Em outras palavras, o economista reconhece que seu modelo ainda precisa ser confrontado com outras explicações possíveis.

Há ainda uma ressalva especialmente importante para o Brasil. Ao examinar os benefícios fiscais de juros menores, Cochrane afirma: “Lembre-se: pressupus uma política fiscal constante”.

O alerta é simples. Se o governo aproveitar a redução dos juros para aumentar as despesas, os ganhos fiscais poderão desaparecer. O resultado dependerá, portanto, de decisões políticas que não estão asseguradas pelo modelo econômico.

Em se tratando de governos do PT, o alerta, além de simples, é grave. De arrepiar os cabelos.

Não vou criticar Lara Resende pela ousadia intelectual, que é sempre bem-vinda. Tampouco sou a pessoa certa para dizer se suas conclusões estão certas ou erradas.

O que acho temerário é que ele queira submeter o país a um experimento que ainda levanta sérias dúvidas.

Transformar uma hipótese cercada de incertezas numa receita para o PT governar o Brasil é irresponsável.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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