Esquerda x bolsonarismo nas ruas: como chegamos até aqui
Entenda a história não contada pelos dois lados
A esquerda fazia a caricatura da direita, associando à ditadura militar e à submissão aos Estados Unidos qualquer iniciativa crítica ou contrária a condutas de esquerdistas no período posterior à democratização.
As pesquisas de opinião indicavam, no entanto, a demanda reprimida de amplos segmentos da população por representatividade política à direita do PT, com posições majoritárias contra a legalização das drogas e do aborto, além da cobrança por maiores punições a criminosos.
Alguns editores, autores e colunistas, remando contra o controle acadêmico e midiático exercido pela esquerda, passaram quase três décadas (de 1990, 2000 e 2010) introduzindo autores conservadores e liberais no debate público brasileiro, destrinchando as conexões petistas com as ditaduras de esquerda latino-americanas, desmascarando o identitarismo radical como forma de interdição do debate mediante a demonização de críticos e adversários, denunciando o projeto criminoso de poder ancorado em esquemas de corrupção e instrumentalização do Estado, e expondo a desconexão do partido governante com as demandas do povo, inclusive de prosperidade.
Lula, em 2002, havia tomado um banho de loja para disfarçar sua natureza de sindicalista radical, simpático ao socialismo, e caber no traje de esquerdista moderado, adepto da responsabilidade fiscal. Esse traje, ilustrado na “Carta ao povo brasileiro”, foi ficando curto e sendo rasgado ao longo do primeiro mandato, conforme a voracidade petista em controlar o Congresso levava ao mensalão e a busca da reeleição já turbinava os gastos públicos. Os efeitos negativos disso, porém, ficavam mascarados graças ao “boom de commodities” – um período prolongado de alta nos preços de matérias-primas, como petróleo, minerais, alimentos e metais, impulsionado pela crescente demanda da China e de outros mercados emergentes -, que vigorou de 2000 a 2014.
Quando caiu essa máscara no governo de Dilma Rousseff, escancarou-se o petismo como ele já era: gastador, corrupto, hipócrita, cúmplice de regimes ditatoriais, alheio à segurança pública dos brasileiros e nefasto à economia do país. Ao mesmo tempo que 14 milhões de desempregados ilustravam a crise decorrente da filosofia de gastos iniciada com Lula e continuada com Dilma, o escândalo de corrupção da Petrobras, investigado pela Lava Jato, marcava a reincidência da esquerda em esquema de suborno, usado para compra de apoio parlamentar e enriquecimento ilícito.
A realidade, então, deu e reforçou a razão daqueles editores, autores e colunistas, que tiveram projeção catapultada pelas novas ferramentas de internet e, em parte, foram ganhando espaço em veículos menos refratários à contestação da esquerda hegemônica. O discurso contestador que se espalhava nas redes sociais também levou uma nova direita às ruas do Brasil, com protestos de adesão popular contra o establishment esquerdista, organizados por grupos de jovens ativistas, sem qualquer liderança política proeminente.
Formou-se o caldo cultural perfeito para o crescimento de uma alternativa eleitoral direitista, tanto mais forte quanto mais derrotas o petismo acumulava, como o impeachment de Dilma em 2016, a primeira condenação de Lula em julho de 2017 e sua prisão em abril de 2018 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá, reformado por OAS e Odebrecht, duas empreiteiras do petrolão.
Não havia, no entanto, um líder político de maior trajetória, com histórico de defesa do regime democrático e do liberalismo econômico, nem com a visão do conservadorismo tradicional de Edmund Burke, que valoriza a prudência como virtude primária e prioriza reformas graduais em oposição ao ímpeto revolucionário ou reacionário de destruir a ordem estabelecida.
A cumplicidade e a complacência das demais alternativas eleitorais com a corrupção petista e o esquerdismo dominante acabaram ajudando Jair Bolsonaro, em 2018, a ocupar essa lacuna de representatividade política à direita do PT, mesmo sem ter tido qualquer relevância até 2017 no movimento intelectual, cultural e de rua, que plantou as sementes para uma virada ao menos ideológica de governo, muito menos em qualquer investigação da roubalheira sistêmica.
Historicamente, o ex-capitão expulso do Exército era um deputado federal do Centrão que defendia a ditadura militar, tinha a mesma mentalidade estatista daquele regime – um ponto em comum, aliás, com a própria esquerda estatizante de Lula -, era contrário a privatizações, chegara até a pregar fuzilamento de FHC em razão delas, além de ter sido vaiado e impedido de subir em carro de som em um dos primeiros atos pelo impeachment de Dilma.
Mas o pai de Flávio, Carlos e Eduardo se aproveitou da rara confluência de fatores econômicos, políticos e policiais favoráveis à direita e disfarçou sua natureza de radical do Centrão, simpático à ditadura militar, para caber no traje de direitista democrático, republicano, conservador nos costumes e liberal na economia, associado às Forças Armadas apenas no sentido de restabelecer a ordem.
Em campanha, o então candidato encobriu seu estatismo com a escolha de Paulo Guedes como ministro da Fazenda e, pouco antes de surgirem indícios do histórico de funcionalismo fantasma dos Bolsonaro, o presidente eleito deu a seu governo o verniz de combatente da corrupção com a escolha do então juiz Sergio Moro como ministro da Justiça e Segurança Pública.
Esse traje de Bolsonaro, sobretudo com as revelações do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre o esquema de Flávio, foi ficando curto e sendo rasgado logo nos primeiros anos de governo, conforme a voracidade bolsonarista em controlar investigações levava à sabotagem da combate à corrupção, a aliança com Dias Toffoli e Gilmar Mendes desencadeava a pressão da família contra a CPI da Lava Toga, e a fragilidade do então presidente resultava nos escambos com o Centrão que pariram o orçamento secreto, mensalão institucionalizado.
Os efeitos negativos disso, porém – incluindo o excesso de poder do STF e a impunidade geral da qual Lula foi beneficiário -, ficavam e até hoje ficam mascarados graças à divisão da sociedade em “nós contra eles”, à enganação de mentes binárias com narrativas maniqueístas e à relativização dos estelionatos eleitorais de Bolsonaro na comparação com os escândalos da esquerda. Todas essas estratégias foram exploradas cada vez mais por profissionais da comunicação e influenciadores virtuais que preferiram faturar alto com o adesismo ao então governo a manter a vigilância sobre o poder, independentemente do viés ideológico.
Todos os ministros técnicos, incluindo Moro, foram deixando a Esplanada, à exceção de Paulo Guedes, que se tornou, como apontei na época, o legitimador econômico da imoralidade política. Essa imoralidade foi turbinada com a conduta aloprada de Bolsonaro na pandemia de Covid-19 e suas manifestações de indiferença à morte de centenas de milhares de brasileiros, o que rendeu ao então presidente desgaste com fatias do próprio eleitorado e turbinou o atrito específico do bolsonarismo com Alexandre de Moraes, em embate que ficaria marcado por extrapolações cometidas por ambos os lados.
A perspectiva de derrota eleitoral em 2022 fez o então presidente, membros de seu governo e ativistas aloprarem de vez, com desinformação sobre o sistema eletrônico de votação, trama golpista planejada antes e depois do resultado das urnas; e os atos de 8/1/2023, realizados logo após a primeira semana do governo Lula.
Sem “boom de commodities” em seu terceiro mandato, o presidente que buscou se descolar da crise estourada no governo Dilma e surfou na onda antibolsonarista retomou sua gastança desenfreada, sem conseguir emplacar qualquer marca de gestão, exceto não ser Bolsonaro. O roubo dos aposentados rendeu novo desgaste a Lula, que, todavia, conteve os danos graças a outra ajuda do bolsonarismo, quando Eduardo Bolsonaro celebrou o tarifaço de Donald Trump sobre produtos brasileiros, além de articular medidas do governo americano contra ministros do STF em razão do julgamento de seu pai.
As penas excessivas impostas a envolvidos no 8/1 serviram de pretexto para atos bolsonaristas em 7 de setembro de 2025, que, com direito a bandeira dos EUA esticada na Paulista, buscavam evitar o mesmo destino a Bolsonaro e pressionar parlamentares a aprovarem um projeto de anistia a todos os réus e condenados.
A pressão da oposição no Congresso aumentou após a condenação do ex-presidente a 27 anos e 3 meses de prisão, mas uma articulação com o Centrão fez o bolsonarismo embarcar, ao mesmo tempo, na PEC da Blindagem, que protege contra processos criminais todos os criminosos com mandato parlamentar ou presidentes de partido, permitindo à respectiva Casa Legislativa rejeitar sua abertura ou o próprio mandado de prisão.
Os votos em massa de bolsonaristas a favor da PEC e até de votação secreta para blindar eventuais bandidos ajudaram a esquerda, então, a fortalecer sua campanha em defesa da soberania nacional e contra a anistia, a ponto de ressuscitar a mobilização de dezenas de milhares de pessoas nas ruas, com direito a show de tropicalistas em Copacabana, bandeira do Brasil esticada na Paulista e até José Dirceu, condenado no mensalão e no petrolão, posando em Brasília de combatente da impunidade. O bolsonarismo, afinal, encarna perfeitamente a caricatura que esquerdistas faziam da direita.
Agora, a indignação seletiva da esquerda e do bolsonarismo, o ciclo de ajudas de um lado a outro com o flagrante de sua hipocrisia, e as tentativas de ambos de se limparem na sujeira alheia são as marcas residuais de um país preso há mais de 60 anos na polarização de 1964, hoje administrada conforme a conveniência por um Centrão fisiológico e patrimonialista que tenta levar vantagem de todos os lados, inclusive em acertos com o Centrão do STF.
Esse é o abismo em que o Brasil se deixou aprisionar; e foi assim que, resumidamente, por falhas cognitivas e morais, chegou-se até aqui. Quem não sabe contar a própria história, ou se nega a aprendê-la, tende a padecer no fundo do poço, ou a repetir o caminho para o precipício.
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Comentários (6)
Leila Sibele Pilger Glufke
23.09.2025 19:14Excelente análise. Somente fazendo um jornalismo sério e imparcial por muito tempo é possível explanar tantas coisas que vêm acontecendo nos últimos anos.
Daniela Bueno
23.09.2025 08:11Pena que não adianta nada compartilhar esse texto brilhante, pois quem deveria ler, não irá ler. Mas se ler, certamente não irá entender. A lavagem cerebral de ambos os lados foi muito bem feita. Creio que seja irreversível, infelizmente para o país.
Otreblig50
22.09.2025 23:51Andre, não adianta mandar nem prá direita nem prá esquerda. O TEXTO É LONGO, e verdadeiro, mas incompreensível para analfabetos funcionais. Alem disso não tem figurinhas !!!
ISABELLE ALÉSSIO
22.09.2025 22:21BRI-LHAN-TE! Obrigada pela retrospectiva lúcida dos fatos! 🏆👏🏻🤗
Lucas Azevedo
22.09.2025 18:55Otima analise!
Andre Mussolin
22.09.2025 17:51Parabéns Felipe,excelente texto elucidativo. Será que as bolhas esquerdistas e bolsonaristas teriam a capacidade de entendimento.?com certeza não. Esse artigo seria bom ser enviado para a imprensa chapa branca de ambos os lados .