Entenda por que detesto e não leio textos de IA
Quem escreve publicamente assina um contrato e assume o risco implícito de errar, de se expor, de ser cobrado
Particularmente, antes de escrever, leio pormenorizadamente o tema, busco fontes diversas, reflito a respeito e, por mais que meu estilo seja impulsivo – e até bastante duro às vezes, demonstrando estar carregado de emoção -, jamais abordo um assunto sem pleno conhecimento do que se trata, ainda que eu caminhe muito mais no sentido do desabafo do que de uma análise. Trata-se, portanto, de um método pessoal de apuração e elaboração que, ainda que não siga rigorosamente os cânones jornalísticos tradicionais, se ancora em leitura, interpretação e juízo crítico próprios.
O ponto é que tenho o máximo e incondicional respeito pelo leitor, pelo tempo de alguém que dedica o próprio tempo a “me ouvir”. Em um ambiente de excesso informacional e disputa permanente por atenção, esse tempo se torna ainda mais valioso. Digo e repito com muita frequência, que jamais me pretendi um formador de opinião, mas tão somente um observador da cena política brasileira que, à luz dos próprios valores, transcreve sua visão do fato em busca de oportunizar aos leitores uma outra perspectiva, distinta, mas assumidamente autoral.
Nesse sentido, nada mais fake e intelectualmente desonesto do que apelar para uma IA qualquer, para escrever, especialmente quando o compromisso presumido é com a autenticidade. Ora, se as pessoas buscam Ricardo Kertzman, precisam tê-lo, e não uma ferramenta agregadora de opiniões, com linguajar insuportavelmente padronizado e infantil, incapaz de reproduzir repertório humano. Escrever por uma IA, a meu ver, é mentir a quem espera o contrário. Pior. É não dedicar esforço a quem me dedica atenção, rompendo uma relação implícita de confiança entre autor e leitor.
Por favor, me poupem
Por isso, me recuso, tão logo identifique – e isso é cada vez mais fácil -, que um texto foi escrito por uma IA, ainda que muitas vezes disfarçado sob aparente sofisticação, a prosseguir com a leitura. Ora, por que vou dedicar tempo e energia lendo o que o publicador – diferente, neste caso, de autor, por razões óbvias – “escreveu”? Por que irei dar o que o “autor” não me deu: seu tempo e sua energia pessoal? Se ele tem preguiça de escrever, por que eu deveria não ter de ler? A reciprocidade mínima entre quem escreve e quem lê deixa de existir nesse cenário.
Recebo dezenas de textos todos os dias, sobre todos os assuntos, oriundos de diferentes fontes. Infelizmente, hoje, não mais que dois ou três me retêm até o fim – seja pelo tema, qualidade do texto e, sobretudo, por ter sido escrito por um humano, com todas as imperfeições e singularidades que isso implica. A praga da IA – obviamente que louvo essa brilhante tecnologia, desde que utilizada corretamente e como instrumento auxiliar, e não substitutivo -, em muitos casos, vem tornando insuportável, para quem valoriza autoria, densidade e responsabilidade intelectual, a leitura.
Quem escreve publicamente assina um contrato e assume o risco implícito de errar, de se expor, de ser cobrado. Quem terceiriza isso a uma máquina está, no fundo, terceirizando a própria responsabilidade. Tanto pior, inclusive, é assinar aquilo que não produziu. É uma espécie de apropriação intelectual indébita. E aí não há estilo que justifique, nem leitor que mereça. Eu, Ricardo, me recuso a utilizar uma IA para além de corrigir digitação e ganhar tempo. Em troca, peço que se abstenham de me enviar essas porcarias enlatadas. Acredito ser um pacto justo.
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