Dennys Xavier na Crusoé: Sem garantias, mas cheio de desejos
Os antigos sabiam que o amanhã não se afirma. Ele, no máximo, se arrisca
Na gramática do grego antigo, o futuro sigmático [assim chamado por causa da presença do s (sigma) na formação verbal] carrega mais do que uma projeção temporal: ele está cheio de desejo, mas vazio de garantia.
O verbo grego, ao se dobrar sobre o futuro, não promete, apenas espera. Os antigos sabiam que o amanhã não se afirma… ele, no máximo, se arrisca.
É significativo que, ainda no grego de Sócrates e Platão, boulomai (querer) e elpis (esperança) estejam semanticamente próximos nas práticas do discurso futuro.
E mais: o futuro não era um tempo neutro, mas uma declaração existencial, uma aposta.
Conjugar no futuro era, por vezes, desejar, por outras, arriscar-se a falhar.
Diferente do modo indicativo moderno, o futuro do verbo no grego preservava o desassossego do porvir.
O amanhã não existe, é uma fábula, uma ficção. Tanto quanto não se pode fazer nada sobre o passado (na melhor das hipóteses, aprender com ele para evitar ulteriores problemas… estaríamos dispostos? Não parece…).
Esses tais gregos antigos, mestres em nomear o indizível, jamais confundiram o futuro com uma promessa.
Ao conjugarem o verbo no tempo vindouro, não o faziam com a certeza mecânica dos relógios modernos.
Seu “futuro desiderativo” não era previsão, era desejo enunciado com hesitação, com parcimônia, como quem fala sob o peso da dúvida.
Sabiam, como nós deveríamos saber, que o amanhã não é extensão do hoje, mas o seu desafio em tudo aberto e incerto.
E 2026 nasce assim: não como um presente embrulhado em ouro, mas como uma figura esfumaçada na linha do horizonte.
Não há “nova era”, nem aurora dourada. Você pode pular ondinhas, fazer todas as práticas de superstições do manual da esperança esvaziada… de lá, nada sai.
Há, como sempre houve, o mundo. E o mundo, este velho palco de desordem, pretensões e muita insensatez continuará sendo o que é: hostil à verdade, ingrato com os bons…
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