‘Dark Horse’ de Troia
Explicações dos bolsonaristas para a relação de Vorcaro com o filme sobre Jair Bolsonaro não conseguem driblar a essência do problema
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e seus aliados tentam salvar a pré-candidatura presidencial da família alegando a inocência e a ingenuidade que lhes foi negada (com razão) a Alexandre de Moraes.
Se o senador é um “filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, como alegou o senador ao se defender, então Viviane Barci de Moraes não passa da dona de um escritório de advocacia que cuidou da estruturação do compliance de um ousado banco de investimentos administrado por um impetuoso banqueiro.
O problema, no caso do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), é que o banco atendido por sua mulher se tornou alvo de uma operação policial intitulada Compliance Zero, que sugeriu, entre outras coisas, que Moraes teria trocado mensagens com Daniel Vorcaro no dia de sua prisão.
Os problemas
O problema, no caso de Flávio, é que nem sequer a desculpa do “dinheiro privado” cola, já que o Banco Master escalou em cima de 1,8 bilhão de reais de fundos de previdência estaduais e municipais. Ainda que o filho 01 de Bolsonaro não soubesse disso, há um constrangimento essencial.
Se Vorcaro distribuiu benesses por Brasília para conseguir vantagens, como está sugerido pelas investigações da Polícia Federal — e os próprios bolsonaristas vinham apontando a conduta como condenável —, por que, no caso de Dark Horse, a generosidade do banqueiro seria desinteressada?
Além de tudo isso, o montante de dinheiro de que se fala, de cerca de 134 milhões de reais, está muito acima dos maiores orçamentos do cinema brasileiro, na casa dos 40 milhões de reais — e para um filme que, a julgar pelo trailer, não parece justificar um gasto tão alto.
Para piorar, as explicações são desencontradas. Flávio disse que a relação com Vorcaro vinha desde o fim de 2024 e seus aliados alegam que ele não fazia mais do que cobrar pagamentos em 2025. Mas o deputado federal Mario Frias (PL-SP), roteirista e produtor do filme, disse que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”.
Houve, contudo, circulação de dinheiro entre empresas ligadas a Vorcaro e os produtores do filme. A reportagem do Intercept Brasil que revelou a conexão entre Flávio e Vorcaro fala no repasse de 10 milhões de dólares para a produção do filme. O dinheiro foi repassado, mas não chegou ao filme?
E, ainda que nenhum dinheiro tenha sido repassado, restam as mensagens de Flávio para o banqueiro pedindo por esse dinheiro, que já são o bastante para macular suas pretensões presidenciais.
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Cavalo de Troia
Esse é o tamanho do buraco no qual os filhos de Jair Bolsonaro colocaram não apenas a própria família, mas o campo político da direita brasileira, que alegam representar imperialmente.
Na tentativa de salvar o pai, que é, essencialmente, o responsável por toda essa confusão, Flávio, Eduardo e Carlos impuseram uma candidatura presidencial cujo horizonte, descobre-se agora, era ainda mais curto do que já se imaginava — a acusação de rachadinha se tornou obsoleta.
Dark Horse, título do filme sobre Bolsonaro protagonizado por Jim Caviezel (foto), significa “azarão”. Mas o cavalo dessa história parece mais com o de Troia, por meio do qual os gregos dizimaram os troianos. Flávio é o presente de Bolsonaro para a direita brasileira.
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