Crusoé: A ficção do servidor mal pago e o caso dos magistrados

22.08.2026

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O Antagonista

Crusoé: A ficção do servidor mal pago e o caso dos magistrados

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Maristela Basso
2 minutos de leitura 01.05.2026 10:53 comentários
Análise

Crusoé: A ficção do servidor mal pago e o caso dos magistrados

Em democracias maduras, o debate sobre remuneração pública é aberto, contínuo e, sobretudo, legítimo. Não há tabu em discutir limites, critérios e proporcionalidade

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Maristela Basso
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Crusoé: A ficção do servidor mal pago e o caso dos magistrados
Juiz brasileiro. Inteligência artificial ChatGPT

Há uma narrativa que se tornou quase intocável no Brasil: a de que o servidor público — e, em particular, o magistrado — é mal remunerado.

Essa narrativa já foi verdadeira.

Mas deixou de ser há muito tempo.

Há trinta anos, um jovem advogado sabia que, ao optar pela magistratura, faria um sacrifício econômico em troca de estabilidade e prestígio institucional. A advocacia, especialmente a bem-sucedida, pagava mais — e isso era parte do equilíbrio do sistema.

Hoje, esse equilíbrio foi invertido.

E seguimos fingindo que não.

Magistrados brasileiros, sobretudo nos tribunais superiores e em grande parte da magistratura federal e estadual, recebem remunerações que, somadas a benefícios diretos e indiretos, frequentemente superam — e com folga — a renda média da advocacia privada, inclusive em segmentos qualificados.

Não se trata apenas do salário-base, já elevado.

O ponto central está no conjunto: auxílios diversos (moradia, alimentação, saúde), verbas indenizatórias que escapam ao teto, férias ampliadas, licenças e vantagens acumuláveis.

O resultado é um modelo híbrido: remuneração alta com garantias de estabilidade praticamente absolutas.

Na iniciativa privada, a lógica é outra.

Altos rendimentos estão associados a risco, oscilação, exposição ao mercado, cobrança permanente de performance. Não há blindagem.

Na magistratura brasileira, criou-se algo diferente: alta remuneração sem risco equivalente.

E ainda assim, insiste-se na retórica da defasagem.

Essa dissonância entre discurso e realidade produz um efeito corrosivo: deslegitima o próprio sistema perante a sociedade.

Porque o problema não é o juiz ganhar bem.

Magistrados devem ser bem remunerados — isso é condição de independência.

O problema começa quando a remuneração se afasta da realidade social, os benefícios se multiplicam sem transparência plena e, sobretudo, quando se constrói uma narrativa de escassez que já não corresponde aos fatos.

Nesse ponto, não estamos mais diante de política remuneratória.

Estamos diante de uma ficção institucional…

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