Como o mercado reage à crise de Alexandre de Moares
Parte do mercado já desconfia da política econômica de Lula. Se o caso Moraes o desgastar, esses investidores podem ver isso como um alívio
O aprofundamento da crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e Daniel Vorcaro chegou ao mercado financeiro no mesmo momento em que uma série de outros fatores disputava a atenção dos investidores.
No primeiro pregão após a divulgação das mensagens atribuídas ao banqueiro e ao ministro do Supremo Tribunal Federal, ontem, terça-feira (1), o Ibovespa subiu 1,30%, aos 179.722 pontos, enquanto o dólar caiu 0,47%, para 5,15 reais.
Os números mostram que a bolsa está mais atenta a questões concretas e internacionais, porém, não permitem concluir que os investidores tenham ignorado o episódio. O pregão foi marcado pela alta de 4,6% do petróleo Brent, pelo avanço das ações da Petrobras e pela divulgação do PIB do segundo trimestre, que influenciou as expectativas para os juros.
É justamente aí que aparece o primeiro efeito concreto da crise para o mercado. O problema não está necessariamente em uma queda imediata da Bolsa, mas na possibilidade de o episódio vir a alterar a percepção sobre o risco eleitoral e institucional brasileiro.
Essas variáveis são incorporadas aos preços de forma difícil de isolar, principalmente no câmbio e nos juros futuros, porque se misturam às expectativas fiscais, monetárias e externas.
As mensagens reveladas pela investigação acrescentaram uma dimensão financeira ao caso. Segundo as informações divulgadas, Vorcaro manteve contato com Moraes antes de sua prisão e buscou orientação sobre a possibilidade de deixar o país.
Também vieram a público informações sobre um contrato de 131 milhões de reais entre o Banco Master e o escritório da mulher do ministro. As circunstâncias ainda estão sendo apuradas, e os registros, isoladamente, não permitem concluir pela prática de irregularidade.
Para o mercado, parte da questão passa a ser se o caso produzirá consequências eleitorais. Alexandre de Moraes é visto como aliado de Lula, que lidera as pesquisas a pouco mais de um mês do primeiro turno.
Como parte do mercado financeiro não nutre grande admiração pelo atual governo, sobretudo pela condução da economia e do déficit fiscal, um desgaste de Lula na disputa pode ser lido por esse grupo como um fator positivo.
Para o economista-chefe da Lev Asset, Jason Vieira, “escândalos envolvendo figuras do poder não são novidade. Por isso, esses investidores tendem a esperar novas pesquisas eleitorais para medir se haverá impacto e qual será o tamanho dele.”
Também fica no ar se o caso produzirá consequências sobre decisões judiciais, investigações ou instituições ligadas ao sistema financeiro, já que todo o escândalo de Vorcaro se deu no âmbito do Banco Master e empresas correlatas.
Quanto maior essa incerteza, maior pode ser a cautela dos investidores com o Brasil, o que tende a afetar os juros, hoje em trajetória de queda, pressionar o câmbio e dificultar a entrada de novos recursos no país.
A liquidação do Banco Master já mobilizou o Fundo Garantidor de Créditos em uma operação bilionária, com estimativa de mais de 40 bilhões em pagamentos a cerca de 800 mil investidores.
O impacto para os mercados, portanto, tende a ocorrer menos por uma reação automática nas ações e mais por mudanças na percepção eleitoral e de risco. Se novas informações alterarem essa percepção, os primeiros sinais podem aparecer no câmbio, nos juros e no custo de financiamento de empresas e bancos.
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