Caso Carluxo: a confusão sobre a data que baseou a operação

17.10.2026

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O Antagonista
Caso Carluxo: a confusão sobre a data do zap que baseou a operação
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Felipe Moura Brasil
7 minutos de leitura 30.01.2024 16:02 comentários
Análise

Caso Carluxo: a confusão sobre a data do zap que baseou a operação

A julgar pelo print incluído na decisão de Moraes, a mensagem que baseou a operação contra Carlos Bolsonaro é de outubro de 2022. Os aloprados estão por toda parte

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Caso Carluxo: a confusão sobre a data do zap que baseou a operação
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A julgar pelo print incluído na decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, a mensagem de WhatsApp que baseou a operação de segunda-feira, 29, contra Carlos Bolsonaro (foto, no carro em que foi prestar depoimento à PF) é de outubro de 2022, quando Alexandre Ramagem, ao contrário do que apontou a Procuradoria-Geral da República em parecer favorável às buscas, já havia deixado o cargo de diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para disputar vaga na Câmara dos Deputados na eleição daquele ano.

“A autoridade policial relata que, afastado o sigilo telemático do Deputado Alexandre Ramagem, foi identificada conversa mantida por WhatsApp entre o parlamentar e Luciana Almeida, Assessora do Vereador Carlos Nantes Bolsonaro. Compreende que a Assessora Luciana solicitava do então Diretor-Geral da ABIN ‘ajuda relacionada ao Inquérito Policial Federal em andamento em unidades sensíveis da Polícia Federal’”, diz o parecer da PGR, citando o relatório da PF, ora sem aspas, ora com aspas.

É possível depreender que a menção ao “então” cargo de Ramagem está errada, porque aparecem no print como “dom, 9 de out.” e “ter, 11 de out.” as datas das mensagens anteriores à do pedido de “ajuda”, esta última sinalizada apenas como “hoje”. Como o único ano recente em que os dias 9 e 11 de outubro caíram respectivamente em um domingo e uma terça-feira foi 2022, conclui-se que Ramagem já era ex-diretor da Abin, uma vez que ele havia deixado o comando da agência em março do mesmo ano.

Dois anos depois

A conclusão não elimina o fato de que a assessora de Carluxo pedia informações sobre inquéritos da PF, nem a hipótese de que Ramagem ainda tivesse, na agência que comandou, acesso interno aos documentos e/ou influência com ex-subordinados para obtê-los; mas a PGR se limitou a associar a troca de mensagens a outro episódio “no período”, citando um fato ocorrido, na verdade, dois anos antes, em 2020.

“A interferência sobre procedimentos não seria acontecimento avulso no período. A representação minudencia a descoberta de impressão, pelo Dr. Ramagem, em fevereiro de 2020, de informações de inquéritos eleitorais em curso na Polícia Federal que listavam políticos do Rio de Janeiro”, diz o parecer da Procuradoria.

Como um pedido feito em outubro de 2022 não pode gerar uma impressão de informações feita em fevereiro de 2020 sem uma máquina do tempo, não há relação direta entre os dois episódios específicos. A conclusão não elimina os indícios de que Ramagem atendia a pedidos da família Bolsonaro – até porque Jair confessou que, da Abin, “tinha informações”, como relembramos no Papo Antagonista –; mas não há, na decisão de Moraes, evidência de vínculo entre a impressão e o pedido mencionados.

“A autoridade policial estabelece que a Sra. Luciana Almeida, antiga assessora de Carlos Bolsonaro, operara como intermediadora das demandas do interesse do Vereador a Alexandre Ramagem”, continua a PGR, usando o verbo “operar” no pretérito mais-que-perfeito (“operara”), tempo verbal empregado para indicar uma ação passada que ocorreu antes de outra, também no passado. A frase é vaga e ambígua, mas, se a PF entendeu que o referido pedido veio antes da citada impressão, entendeu errado.

Por outro lado, a própria PF reconheceu em seu relatório, citado por Moraes, que ainda não tinha o quadro completo: “A solicitação de realização de ‘ajuda’ relacionada à Inquérito Policial Federal em andamento em unidades sensíveis da Polícia Federal indica que o NÚCLEO POLÍTICO possivelmente se valia do Del. ALEXANDRE RAMAGEM para obtenção de informações sigilosas e/ou ações ainda não totalmente esclarecidas, razão pela qual se faz mister as diligências abaixo representadas.”

Foto adulterada

A PGR concordou: “A providência de busca e apreensão se mostra justificada, quanto ao sr. Carlos Bolsonaro e à Sra. Luciana Almeida, na medida em que se infere a causa provável do contexto espelhado da peça policial em apreço.” É até possível que a causa de impressão feita por Ramagem fosse algum pedido anterior feito por Carluxo via assessoria, já que, segundo a PF, “a comunicação entre os investigados” Ramagem e Carluxo “se dá precipuamente por meio de seus respectivos assessores”. Apenas não é possível inferir que a causa da impressão de 2020 fosse o pedido de 2022.

Depois da foto adulterada usada para basear a operação contra o também deputado bolsonarista Carlos Jordy, seria de esperar que houvesse maior cuidado por parte da Polícia Federal, da PGR e de Moraes no exame de cada prova coletada, mas novamente se abriu margem para a contestação técnica e, claro, política.

A PF, aparentemente, já começou a tentar desfazer a confusão. Nesta terça-feira, 30, alguém vazou para o jornal O Globo que a corporação investiga se a mensagem “enviada em novembro de 2022” – ou seja: o “hoje” sinalizado no print já seria de novembro – tinha como intuito buscar informações de um inquérito que apurava uma suposta interferência da Polícia Rodoviária Federal na eleição daquele ano.

Neste caso, Carlos Bolsonaro, com seu pai já derrotado nas urnas no mês anterior, estaria preocupado com a apuração, instaurada em novembro de 2022, sobre a suposta trama para atrapalhar o trânsito de pessoas durante a votação do segundo turno.

A delegada

A responsável pelo inquérito era justamente a delegada federal citada na mensagem da assessora Luciana, Isabela Muniz Ferreira, que havia assumido dois meses antes, em 2 de setembro daquele ano, o comando da área de Inquéritos Especiais na Superintendência da PF no Distrito Federal. A mensagem da assessora de Carluxo não poderia mesmo ser de 2020, já que, naquele ano, Isabela ainda era delegada de crimes previdenciários, pasta que não tinha ligação com inquéritos sobre Jair Bolsonaro.

[Curiosamente, ela assumiu o novo cargo, em 2022, no lugar de Bernardo Guidali Amaral, exonerado após pedir abertura de inquérito para apurar a conduta do ministro Dias Toffoli, do STF, citado em delação do ex-governador Sergio Cabral como beneficiário em esquema de venda de sentenças para favorecer um prefeito fluminense no Tribunal Superior Eleitoral. A família Bolsonaro e Toffoli haviam se blindado mutuamente contra a CPI da Lava Toga e a investigação das “rachadinhas” de Flávio. Amaral foi rifado, em mais um aceno bolsonarista ao ministro indicado por Lula. O desmonte e o abandono da luta anticorrupção por Bolsonaro e Lula foram citados pela Transparência Internacional Brasil nesta terça-feira como causa da queda de dez posições do Brasil no ranking mundial de percepção da corrupção.]

Aloprados

A investigação da PF sobre qual inquérito Carluxo queria acessar – ou seja: qual era o intuito da mensagem da assessora Luciana – se deve ao fato de que os inquéritos que ela apontou como “envolvendo PR e 3 filhos”, na verdade, não os envolviam. Como dizem trechos do relatório da PF citados por Moraes: a observação não foi corroborada “em relação aos IPLs referidos”. “Os referidos inquéritos policiais não apresentam pertinência com os referidos PR e 3 filhos. Entretanto, fontes abertas indicam que no período existiam investigações em andamento no interesse dos sujeitos, razão pela qual provavelmente a fonte não obteve os números dos procedimentos corretos.”

Os aloprados, em suma, estão por toda parte.

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