Barroso, que “derrotou” o bolsonarismo, quer me fustigar também
Certas músicas deveriam ser proibidas a quaisquer tipos de reprodução e interpretação de qualidade duvidosa
Em maio de 2019, em profunda crise existencial – mais uma, aliás -, resolvi fazer uma viagem sabática, de dois meses, sozinho e isolado em um canto remoto do Círculo Polar Ártico: eu, minhas músicas e meus fantasmas da época.
Em uma das muitas caminhadas filosóficas, à cerca de 1.6 mil metros de altura e 20 graus negativos a congelar o pouco de cérebro sob a calva gelada, me percebi pequenininho, pequenininho diante daquela vastidão infinita.
Já engasgado, olhos lacrimejantes, começo a escutar “Tocando em Frente”, na voz de Almir Sater e Renato Teixeira. Poucas vezes a letra de uma música me fez tanto sentido. Não fosse o ar gelado, e o nível do lago abaixo teria subido uns dois metros por tantas lágrimas derramadas.
Sacrilégio musical
Certas músicas deveriam ser proibidas a quaisquer tipos de reprodução e interpretação. Deveriam ser tratadas como patrimônio tombado. Outro dia mesmo, brinquei no Papo Antagonista, que o sanfoneiro bolsonarista, Gilson Machado, deveria ser condenado e tornado inelegível por tentar tocar e cantar “The Wall”, do Pink Floyd. Coisa pavorosa.
Ontem, ao ouvir o ministro do STF Luis Roberto Barroso – sempre ele, né? – grunhindo como um guaxinim com dor de barriga, “Tocando em Frente”, durante a festa do deputado Marcos Pereira, do Republicanos, um sentimento de asco me percorreu da Cárdia ao Antro estomacal.
Em primeiro lugar, o que diabos faz um ministro do Supremo Tribunal Federal em rega-bofe de congressista? “Ah, Ricardo, autoridades não podem ser amigas?”. Não. Não pode. Já há amigos demais para fazer pelo mundo, fora das esferas do poder em Brasília. É indecorosa a relação entre autoridades que acabam, um dia ou outro, ajudando-se, acolhendo-se e protegendo os seus.
É o DNA, estúpido
Sério. Não sei por que, por exemplo, essa mania, ou melhor epidemia, de esposas de ministros nomeadas para Tribunais de Contas, como se não houvesse outros brasileiros tão ou mais qualificados. Mas em Banânia, o QI (quem indica) só perde para o DNA (laços consanguíneos).
Em segundo lugar: ô Barroso, faz isso não, pô, com minha música! Não me roube aqueles dois minutos de pura contemplação e autoconhecimento combinados, com tamanha desfaçatez política. Foi a maior assepsia emocional da minha vida e merece permanecer assim.
Por quase derradeiro, uma sugestão imperdível de leitura: “Barroso canta em festa de deputado: STF não se dá ao respeito”, de Felipe Moura Brasil, aqui mesmo no O Antagonista. FMB vai reproduzindo trechos da música em meio à descrição dos fatos. Sensacional.
Para quem gosta de música
Do início de dezembro ao final de fevereiro passados, estive fora do país estudando. Um dia, caminhando ouvindo música, para não variar, começou a tocar, pela milésima vez, “My Way”, de Frank Sinatra. Um trecho em especial me lembrou o Felipe – e a mim mesmo:
“For what is a man, what has he got? If not himself, then he has naught. To say the things that he truly feels and not the words of one who kneels”. Em tradução livre: “Para o que serve um homem? O que ele tem, senão a si mesmo? Para dizer o que realmente sente, e não o que, para quem ele se ajoelha, quer que seja dito.”
Pois é, ministro Barroso. Se “Cada um de nós compõe a sua história”, que seja à feição do que cantou e viveu Sinatra. O senhor, do alto de seus quase 70 anos, estará em “Paz para sorrir”, na hora do ato final (final curtain)?
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Comentários (9)
Amaury G Feitosa
26.04.2025 10:29Clayton, a harmonia entre os três pôdres poderes deste galinheiro que teimam em dizer república ´r harmônico e bem simples, o executivo, o legislativo e o judiciário incorporados botam no nosso rabo sem piedade e sem cuspe, meu rabo em petição de miséria presta mais prá porra nenhuma.
Amaury G Feitosa
26.04.2025 10:26Enquanto os homens exercem seus pôdres poderes e se divertem botam no nosso rabo, quem vai botar no fiofó do insigne dr. Verboso? Nada nem ninguém pode impedir isto, aguardem e verão.
José Mancusi
25.04.2025 18:41Excelente texto!!! Parabéns, Ricardo!!!
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
25.04.2025 17:53Parece que não todos, mas alguns ministros do STF perderam totalmente (se é que tiveram) os limites entre o que é conveniente socialmente à uma pessoa que ocupa tal cargo e as demais pessoas. Eles não são membros do governo ou da política em geral, em muitas ocasiões terão que tomar decisões que contrariem políticos, então não cabe tanta confraternização, não cabe tanto comentário e opinião pública sobre a política nacional. O que considero o escandalo maior foi Tofolli confessar que, quando ainda advogava, ter surrupiado um documento parte de um processo para melhor defender o cliente. E confessou rindo diante de uma platéia. Num país decente teria havido um impeachment do ministro. Brasil, né?
ale
25.04.2025 17:11Parabéns à Crusoé/Antagonista por ter trazido o Ricardo para esse brilhante time! Seu jeito de se colocar pessoalmente nos artigos é simplesmente enaltecedor da arte de um jornalista escrever, sensacional, Ricardo!
Mariade
25.04.2025 16:28O guaxinim com dor de barriga (é ótimo) e eu aqui completo o "cara de fuinha" como costumo nomear o outro para não ter que chamar pelo nome. Mas não se parece mesmo com um fuinha?
Annie
25.04.2025 10:37Texto muito bem escrito sim esses ministros do STF perderam a vergonha.
Olinha
25.04.2025 08:45Sempre excelente, Ricardo. E, não, eles não respeitam nem a si próprios.
Clayton De Souza pontes
25.04.2025 08:32A harmonia constitucional entre os 3 poderes sai caro pro contribuinte. Eles se blindam e se locupletam metendo a mão no erário , com a garantia de que sempre haverá uma mão amiga quando por acaso forem pegos com a mão na botija