As dores e os sabores dos cérebros que nunca desligam
Por que tudo parece precisar de um maldito contexto, análise, significado? Como se a realidade bruta fosse insuportável
O problema não é pensar demais. O problema é pensar o tempo todo. Há quem viva e há quem pense a vida. E quem sente e se observa – o bendito tempo todo -, sentindo. Quem ama, quem sofre, quem ri, quem chora… E quem assiste a tudo isso acontecer de dentro da própria cabeça, como se em um filme experimental rumo ao inconsciente.
Eu pertenço ao segundo grupo, o dos hiper reflexivos, uma gente estranha que habita o córtex como se fosse um “lar doce lar”, mas que, de tanto morar ali, acabam exilados da carne e do osso, suando lágrimas de alegria e desespero no campo infinito, etéreo e jamais materializado da tal alma – ou consciência.
A psicanálise tem nome pra isso: super investimento narcísico do ego observador. Traduzindo: o “eu” que observa o “eu” em constante estado de vigilância. Uma espécie de guardião da consciência que nunca relaxa. O preço é alto e não se parcela “no cartão”: insônia, ansiedade, dificuldade de desfrutar o presente.
Ora, pois, pois
Por que tudo parece precisar de um maldito contexto, análise, significado? Como se a realidade bruta fosse insuportável e precisasse sempre de legenda – e em três idiomas, para não ter risco de errar. António Damásio, neurocientista português que escreveu “O Erro de Descartes”, em 1994, aponta o dedo acusador:
“Quando o sistema límbico tenta avisar que ‘algo dói aqui’, o lobo pré-frontal responde com uma espécie de gráfico. E enquanto o corpo esperneia por sentir, a mente negocia, categoriza, recalcula. É uma espécie de dessensibilização de luxo. Esgotante”. Caramba! Esse sujeito deveria ter tomado um café com Salvador Dali.
Mas confesso: há um sabor nisso tudo. O sabor da lucidez. Da clareza cortante que poucos suportam. É um privilégio triste. Você enxerga o que os outros evitam. Capta as entrelinhas, as intenções não ditas, os gestos mínimos que denunciam verdades indigestas. Você sabe e, pior ainda, não tem mais como des-saber.
Bora viver
É por isso que o silêncio de gente assim, como eu, nunca é para valer. Porque o cérebro não desliga nunca. Nem na praia, nem no sexo, nem na aula de meditação guiada por coach que recalibra seu mindset. Aliás, se um dia me virem numa furada dessas, chamem a polícia ou me levem para o hospício mais próximo.
O fato é que a mente puxa assunto com ela mesma. Avalia a respiração, critica o tédio, recorda vergonhas passadas e já começa a sofrer pelas futuras. E ainda arranja tempo para pisotear: “Por que você não está sendo feliz agora?”. Sério. Além de cruel, é sarcástica a mente sacana de um hiper reflexivo.
Mas atenção: não é só dor, não. É também um certo refinamento. Porque quem pensa demais, escreve melhor, ama com mais nuances, sente com mais camadas. Não vive em paz, mas vive em high definition, tipo 8K. No fundo, não é um defeito. É um tipo de funcionamento. Dói, mas tem sabor. E eu ainda tenho muito pra mastigar; e ruminar.
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Comentários (3)
Lucia Carlos Andrade e Freitas Santos
09.06.2025 03:41Ah! Ainda bem que o meu desliga, pelo menos enquanto durmo. A não ser que você considere que sonhar é sinal de vigilância. Mastigue e rumine sempre por aqui. Adorei essa "pensata".
Rosa
08.06.2025 06:34Mas é um deleite te ler e a outros assim para os demais....
Guilherme Rios Oliveira
07.06.2025 12:00Maravilhoso texto Ricardo!!! Nunca me vi tão bem descrito. É triste, mas é verdade. Parabéns!!!