Após megaoperação: é hora de investir no Rio de Janeiro?
A cada tiroteio, um empreendedor adia a inauguração de um escritório
Sou nascido e criado tanto no Rio de Janeiro como em uma mesa de operações de Bolsa de Valores. Para muitos clientes e grandes investidores, isso me tornou o “alvo natural” para consultas sobre novos investimentos no Rio.
Muitos estavam claramente empolgados, até eufóricos. E ficou claro para mim, mais do que nunca, que as pessoas de fora do Rio, mesmo grandes investidores, não têm noção do tamanho do problema.
Quer um spoiler?
Em 2023, o secretário estadual de Segurança Pública, delegado Victor Santos, já apontava uma escassez de aproximadamente 25 mil policiais, sendo 20 mil militares e 5 mil civis.
Em 2024, o Relatório de Passagem de Comando, feito pelo Estado-Maior da PM, apontou que, dos 42 mil PMs da ativa, apenas 52% (pouco mais que a metade) estavam no policiamento ostensivo, a atividade fim.
Em 2025, o governo do Rio identificou 1,9 mil favelas sob influência do crime organizado no estado, sendo 813 delas apenas na capital.
Enquanto seu cérebro faz contas simples, vamos avançar…
O gatilho
A megaoperação policial realizada em 28 de outubro nos complexos do Alemão e da Penha reacendeu um velho debate: vamos conseguir restaurar a segurança pública no Rio?
O balanço da ação, apesar da morte de quatro policiais, foi percebido positivamente pela população — com prisões, apreensões e desarticulação de pontos de controle do tráfico —, mas a euforia será duradoura?
Quem olha de perto sabe que o problema é estrutural, cultural e antigo. E o impacto econômico vai muito além do noticiário policial.
Nos últimos dias, recebi dezenas de mensagens de clientes e grandes investidores de todo o Brasil me perguntando praticamente o mesmo: “Agora o Rio de Janeiro volta a ser o que era? Vamos voltar a investir no Rio?”.
Após reuniões sobre o tema nos últimos dias, vou compartilhar os principais pontos de atenção que podem fazer muita diferença para as suas tomadas de decisão de investimentos, compras imobiliárias, etc.
O impasse aritmético da segurança
Enquanto verdadeiros conhecedores de segurança pública e pessoas lúcidas apenas zombam dos “especialistas” fanáticos com cabelo colorido e óculos invertidos, precisamos falar sério, parar de dar espaço para maluquices e dar atenção aos números.
Muitas pessoas pedem, de forma compreensiva: “Deviam fazer operações como essa todos os dias! Resolveria!” Pois bem… Eu não sou do Bope, minha especialidade são números e investimentos. E, nesse caso, a matemática aponta o dedo na nossa cara.
Mesmo em um cenário hipotético, impossível de ser executado, se o Estado realizasse uma megaoperação todos os dias em cada uma das favelas, sem descanso, sem pausa, sem férias, levaria cerca de cinco anos!
Nesse purgatório da beleza e do caos, obviamente, cada ocupação ainda precisaria deixar uma guarnição para manter a lei e ordem, evitando que quadrilhas rivais reocupassem.
Com cerca de 20.000 policiais, seriam cerca de 10 para cada favela. E o contigente do Bope, a tropa de elite treinada para confrontos, não passa de centenas de agentes, que não poderiam ser espalhados sem mitigar sua força.
É também por isso que se discute tanto o apoio federal, com envio de blindados da Marinha e tropas militares.
Guerra declarada há mais de 30 anos
Quem vive no Rio sabe: o estado está em guerra há mais de três décadas. As fardas policiais são de guerra. As armas, de ambos os lados, são de guerra. E os cenários de confronto, com carros queimados, barricadas na rua e cachorro disputando lixo com urubu, são de guerra.
A única diferença é que os “soldados” voltam para casa a cada 24 horas. O que para alguns pode ser até pior, pois precisam conciliar o perturbador estado mental que a guerra exige com o de pai de família zeloso.
De qualquer forma, ignorar que o Rio está em guerra é negar a realidade. O confronto entre o Estado e o crime organizado já ultrapassou o limite da “segurança pública” e tornou-se um conflito armado interno — com baixas civis, perdas econômicas e um rastro de descrédito que afasta investimentos.
O custo da insegurança
A cada tiroteio, um empreendedor adia a inauguração de um escritório. A cada arrastão, uma loja fecha as portaspra sempre. A cada roubo de celular, um turista lamenta ser a última vez que visita a cidade.
Segundo dados da Junta Comercial, mais de 40 mil empresas encerraram atividades no estado entre 2020 e 2024. O Centro do Rio, antes pulsante, hoje é um retrato melancólico: o Edifício Menezes Côrtes, ícone dos anos 1980, está às moscas. A deterioração econômica é consequência direta do colapso da segurança — e, portanto, de uma política de Estado que falhou em garantir o básico: o direito de ir e vir.
Lula envia sinais contraditórios
O presidente Lula havia declarado em 24 de outubro que traficantes são “vítimas dos usuários de drogas”. Em 4 de novembro, circulou a informação de que o ministério de Direitos Humanos de seu governo discutia dar assistência a familiares dos mortos na megaoperação, ou seja, das tais “vítimas”.
É o tipo de mensagem que desmoraliza quem está na linha de frente e confunde quem assiste de fora. O Rio não precisa de interpretações sociológicas fanáticas. Precisa de reforço na segurança, investimento em diversas áreas, uma política nacional de enfrentamento e reeducação de valores.
Com Brasília evitando suporte financeiro e de pessoal ao governador do Rio, por razões de rivalidade, o recado é claro: a prioridade é manter a picuinha política. E só.
Enquanto o governo federal fecha os olhos, o Rio segue sangrando — e o investidor segue fugindo. O dinheiro também tem medo de bala perdida!
Se continuarmos nessa toada, o cenário recomendado é de que o último (teimoso) a sair não precisará apagar a luz. Ela já estará cortada por falta de pagamento.
Pedro Kazan é profissional do mercado financeiro desde 1999, empreendedor e palestrante, formado em Engenharia de Produção com ênfase em Engenharia Econômica pela UFRJ. De 2002 a 2004, fez parte do Controle Operacional da Mesa Proprietária do Banco BBM, de onde saíram os fundadores das mais renomadas Assets do Brasil, como SPX, Kapitalo e Navi. Desde 2004 dedica-se à Gestão de Recursos e Assessoria de Investimentos Private. Fundador do canal de educação financeira KZN Investimentos. Nascido no Rio de Janeiro. Vivendo em Lisboa.
Leia mais: Fim da escala 6×1 para o Comando Vermelho
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Comentários (3)
Maglu Oliveira
07.11.2025 15:43Muito Bom !!
CUSTÓDIO PRÃNCIPE
06.11.2025 15:19Excelente artigo!
Rosa
05.11.2025 12:03Muito esclarecedor.