A verdadeira sorte do goleiro Vozinha
Quem teve - ou ainda tem - a benção de ter avós amorosos entende bem o que digo
O goleiro Vozinha, de Cabo Verde, virou celebridade mundial depois de fechar o gol contra a Espanha. Em poucas horas, saiu do anonimato para as manchetes internacionais, ganhou dezenas de milhões de seguidores mundo afora e provavelmente abriu a porta para oportunidades profissionais e financeiras que jamais imaginou.
É aquela velha história que o futebol produz há décadas, infelizmente em ritmo e número pequenos se comparados com a quantidade de praticantes e torcedores pelo planeta. Um garoto pobre encontra na bola e num campo de várzea um elevador social sonegado pela vida e que seu próprio país desconhece como nação.
Em países como Cabo Verde – ou mesmo o Brasil – existe uma diferença brutal entre nascer pobre e nascer abandonado. O CEP de nascimento costuma determinar o CEP de morte, mantendo a pessoa presa, com raríssimas exceções, ao gueto quase intransponível da maldita desigualdade social terceiro mundista.
O afeto muda a vida
Se a primeira condição, porém, limita oportunidades, a segunda costuma destruir pessoas. O debate sobre desigualdade social quase sempre gira apenas em torno de renda, patrimônio, educação e acesso a serviços públicos. Tudo isso importa, é claro. Mas há um fator que raramente aparece nas estatísticas pesquisadas.
O que pode ajudar a explicar o porquê algumas pessoas conseguem superar adversidades aparentemente intransponíveis enquanto outras sucumbem ao destino chama-se afeto. Foi justamente isso que a história de Vozinha me chamou a atenção. O patrimônio invisível que faz toda a diferença para qualquer um.
O nome de batismo do goleiro de Cabo Verde é Josimar, não por acaso dado pelo pai em homenagem ao lateral direito do Brasil na Copa do Mundo de 1986. Vozinha é o apelido, já que foi criado pelos avós. Pronto! Bastou isso. Porque naquele instante a história deixou de ser apenas sobre futebol.
Herança que não paga imposto
Ao longo da vida conheci muita gente rica que cresceu emocionalmente miserável. Também conheci pessoas sem patrimônio, que receberam dos pais e avós um ativo infinitamente mais valioso do que qualquer quantidade de dinheiro: referência, pertencimento, segurança. A certeza de que sempre há alguém por perto.
Minha avó morreu há décadas. Mesmo assim, continua mais presente na minha memória do que muita gente viva. Ainda tenho sobre minha mesa uma fotografia tirada quando eu tinha 18 anos. Parece que foi ontem, pois ainda continuo capaz de me lembrar do cheiro dela, da voz doce e fraca e daqele cafuné nas costas insuperável.
Não faço a menor ideia de quanto dinheiro ela tinha. Nunca soube. Na verdade, nunca me importei. A Copa do Mundo talvez transforme Vozinha em um homem rico. Tomara! Mas a grande sorte de sua vida não aconteceu diante da Espanha. Não aconteceu quando ganhou milhões de seguidores e até mesmo possíveis novos patrocinadores.
Amor incondicional
E tampouco aconteceu quando passou a ser reconhecido nas ruas da América Norte ou procurado pelas TVs do mundo todo. Aconteceu muitos anos antes, quando um menino pobre encontrou em casa duas pessoas dispostas a lhe dar aquilo que o dinheiro compra menos do que imaginamos: o verdadeiro amor.
Do tipo que não tem sono ou preguiça. Amor que cobra apenas um sorriso, um abraço, um beijo e um “Te amo, vovó” olhando nos olhos. Quem teve – ou ainda tem – a benção de ter avós amorosos entende bem o que digo. O amor dos pais e dos filhos é sublime. Mas o afeto que vem dos avós tem algo ainda mais especial.
Perguntem ao goleirão de Cabo Verde o que ele prefere: se alguns milhões de dólares na conta até outro dia zerada ou se mais dez ou quinze anos ao lado dos avós queridos. Desconfio que a resposta seja tão grande quanto as defesas que fez contra a Espanha. Do contrário, ele não carregaria – e ostentaria – o nome Vozinha.
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