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“A verdadeira direita do Brasil”?

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Catarina Rochamonte
6 minutos de leitura 17.08.2025 09:28 comentários
Análise

“A verdadeira direita do Brasil”?

É preciso fugir dos extremos e tomar cuidado com a retórica belicosa e simplista que apaga as nuances dos espectros políticos

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Catarina Rochamonte
6 minutos de leitura 17.08.2025 09:28 comentários 6
“A verdadeira direita do Brasil”?
Foto: Reprodução/ Instagram
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O partido Novo oficializou no sábado, 16 de agosto, o lançamento do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, como pré-candidato à eleição presidencial de 2026. O convite, postado no WhatsApp pelo Instituto Libertas, ressaltava a seguinte mensagem: “Vamos unir a verdadeira direita do Brasil”.

A frase é ambígua. Pode significar uma avaliação crítica ao bolsonarismo, que há alguns anos se impôs no Brasil como principal referência da direita, mas pode também ser um apelo para unir essa direita bolsonarista em torno da candidatura do Novo, ambas sendo tomadas pela “verdadeira direita” em contraposição a uma “falsa direita” e a toda a esquerda, tomada aqui por um bloco homogêneo excluído de antemão.

De uma forma ou de outra, há na referida frase uma irrefletida valoração positiva da “direita”, além de perigoso purismo, ausência de distinção, eliminação de nuance e reivindicação de hegemonia.

Parece-me problemático que um partido dito liberal tome a ideologia ou categoria política “direita” por um valor positivo absoluto em torno do qual se busca uma união em detrimento do restante do espectro político.

O liberalismo, no decurso dos eventos históricos que protagonizou enquanto ideologia moderna, aproximou-se tanto da esquerda quanto da direita. Liberais e socialistas já se uniram contra estruturas conservadoras; liberais e conservadores já se uniram contra abruptas rupturas revolucionárias.

Se o malfamado “neoliberalismo” da segunda metade do século XX identifica-se mais com o espectro da direita, o liberalismo social do século XIX e início do século XX encontra mais pontos de contato com a esquerda social-democrata.

Parece-me, pois, contraproducente – até do ponto de vista eleitoral – que o partido Novo, por ocasião do lançamento de uma candidatura presidencial, opte por um chamado de união à “verdadeira direita” excluindo de antemão o eleitorado do centro ou da esquerda moderada com a qual poderia vir a compor.

A refutação clara do radicalismo de direita e o aceno aos moderados de ambos os espectros políticos parece-me um caminho mais correto, mais saudável e mais coerente para um partido em cujos princípios estão citados o império da lei e a democracia.

O partido Novo, na figura de Romeu Zema, se apresenta para a disputa em um momento muito difícil para a política brasileira e de descaminho do próprio partido.

Tal descaminho tem sido a excessiva proximidade com o bolsonarismo que, com sua ignorância boçal e seu autoritarismo escancarado, já se tornou um espantalho. Um espantalho que espanta votos, embora não tenha esgotado todo seu capital político.

Entendo que haja um pragmatismo que visa herdar o espólio do bolsonarismo agonizante, mas contra esse pensamento utilitário reclamo uma ética mais kantiana que afirma ser necessário defender o certo e condenar o errado, a despeito das consequências.

Não é certo fazer de conta que as ações de Jair Bolsonaro, de seus filhos e de seu entorno não foram erradas.

Se o Novo for capaz de se descolar da direita radical, do populismo reacionário que o bolsonarismo representa, o partido pode vir a ser um representante legítimo não da “verdadeira direita” – expressão infeliz, de tom autoritário – mas de uma direita plural, de boa inspiração liberal-conservadora, democrática e humanista.

É preciso fugir dos extremos e tomar cuidado com a retórica belicosa e simplista que apaga as nuances dos espectros políticos.

No livro intitulado “Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política“, Norberto Bobbio reconhece que direita e esquerda não são blocos monolíticos e que existem nuances dentro de cada campo, podendo as posições inclusive serem deslocadas.

Contra aqueles que insistem em afirmar que ou se é de esquerda ou se é de direita, ele reivindica a importância de uma zona cinza que se nutre de elementos de ambos os espectros.

Embora a igualdade seja o critério primário para a distinção entre as duas vertentes políticas, Bobbio também discute a liberdade e a autoridade como critérios secundários que, em certas circunstâncias, podem se sobrepor ou complementar a questão da igualdade.

A posição de direita ou esquerda em relação à liberdade e autoridade não é fixa, podendo variar. A partir dos critérios de igualdade e liberdade, ele sugere então o seguinte espectro das doutrinas e movimentos políticos:

1) Extrema esquerda: movimentos simultaneamente igualitários e autoritários

2) Centro esquerda: movimentos simultaneamente igualitários e libertários

3) Centro direita: movimentos simultaneamente libertários e inigualitários

4) Extrema direita: movimentos simultaneamente antiliberais e anti-igualitários.

Enquanto o moderantismo (à esquerda ou à direita) tende a ser gradualista, evolucionista e a considerar como guia para ação a noção de desenvolvimento, o extremismo (à esquerda ou à direita) tende a ser catastrófico e a interpretar a história como se ela desse saltos.

Outro ponto importante destacado por Bobbio é que extremistas de esquerda e extremistas de direita têm em comum, do ponto de vista político, a aversão pela democracia como conjunto de valores e como método e, do ponto de vista histórico-filosófico, o anti-iluminismo.

Se trago para um artigo jornalístico essas sutilizas conceituais – mesmo sem ter espaço para explicá-las pormenorizadamente – é apenas para alertar o perigo que há na propagação de um discurso no qual um partido se apresenta como “a verdadeira direita” ou como “o único partido 100% de direita.”

Um partido 100% à direita é um partido de extrema direita. Um regime de extrema direita é um regime sem liberdade, sem igualdade, onde Estado subjuga e esmaga o indivíduo. É um Estado totalitário. Certamente não é isso que o partido Novo defende, mas a ausência de cultura política pode levar a exortações irrefletidas.

Sendo assim, seria bom para o partido rever seus slogans, revisitar seus fundamentos e reajustar sua retórica a fim de se apresentar como uma opção viável não apenas para a “verdadeira direita”, mas para a maioria dos brasileiros que almeja um país livre não apenas do PT, mas dos Bolsonaro também.

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Catarina Rochamonte

Professora e escritora, com graduação, mestrado e doutorado em Filosofia, e pós-doutorado na área de Direito.

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (6)

João Bento Corrêa Lima

21.08.2025 11:40

Mais um excelente texto da professora Catarina Rochamonte. Parabéns por mais esta aula!


ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO

18.08.2025 19:01

O brasileiro demonstrou em 2022, de uma vez por todas, que não sabe votar, não consegue raciocinar se há vários candidatos, pensa pouco, entende menos ainda, talvez estivessem certos os militares que só permitiam 2 candidatos para cargos executivos, mesmo quando havia mais, os votos eram somados por partido. Se o brasileiro soubesse votar, Lula e Bosolnaro estariam fora da política nesse momento. Mas como já disse em outras ocasiões: o brasileiro não sabe sair da bost... sem voltar à m...


ALDO SÉRGIO THEOTO PETRONI

18.08.2025 08:51

Se os fanáticos do lulopetismo e do bolsonarismo perceberem que eles têm muito mais semelhanças do que diferenças talvez suas cabecinhas comecem a entender esse excelente texto da Catarina Rochamonte.


Clayton De Souza pontes

17.08.2025 21:21

O Bobbio traz maior clareza científica para a política. Pelas ações dos parlamentares do Novo, considero o partido não extremista e uma boa opção de voto, a priori.


Washington

17.08.2025 10:56

Reflexão profunda e brilhante. Resta saber se o Novo e seu candidato Romeu Zema vão levar em conta.


Luiz Filho

17.08.2025 09:58

Bolsonaro nunca foi “direita”. Era um saudosista de 64. Sempre foi um sindicalista das forças policiais, com tudo que havia de pior com o sindicalismo do luladrão. Seu governo foi tomado pelo carluxo, a doida, que destruía, difamava e agredia qualquer pessoa ou pensar que não fosse absolutamente igual ao que dizia a família. A prioridade foi salvar flávio rachadinha e por isso o PR abaixou as calças e se acocorou para servir aos supremos. Não mostrou um pingo de estratégia e inteligência.


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João Bento Corrêa Lima

21.08.2025 11:40

Mais um excelente texto da professora Catarina Rochamonte. Parabéns por mais esta aula!


ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO

18.08.2025 19:01

O brasileiro demonstrou em 2022, de uma vez por todas, que não sabe votar, não consegue raciocinar se há vários candidatos, pensa pouco, entende menos ainda, talvez estivessem certos os militares que só permitiam 2 candidatos para cargos executivos, mesmo quando havia mais, os votos eram somados por partido. Se o brasileiro soubesse votar, Lula e Bosolnaro estariam fora da política nesse momento. Mas como já disse em outras ocasiões: o brasileiro não sabe sair da bost... sem voltar à m...


ALDO SÉRGIO THEOTO PETRONI

18.08.2025 08:51

Se os fanáticos do lulopetismo e do bolsonarismo perceberem que eles têm muito mais semelhanças do que diferenças talvez suas cabecinhas comecem a entender esse excelente texto da Catarina Rochamonte.


Clayton De Souza pontes

17.08.2025 21:21

O Bobbio traz maior clareza científica para a política. Pelas ações dos parlamentares do Novo, considero o partido não extremista e uma boa opção de voto, a priori.


Washington

17.08.2025 10:56

Reflexão profunda e brilhante. Resta saber se o Novo e seu candidato Romeu Zema vão levar em conta.


Luiz Filho

17.08.2025 09:58

Bolsonaro nunca foi “direita”. Era um saudosista de 64. Sempre foi um sindicalista das forças policiais, com tudo que havia de pior com o sindicalismo do luladrão. Seu governo foi tomado pelo carluxo, a doida, que destruía, difamava e agredia qualquer pessoa ou pensar que não fosse absolutamente igual ao que dizia a família. A prioridade foi salvar flávio rachadinha e por isso o PR abaixou as calças e se acocorou para servir aos supremos. Não mostrou um pingo de estratégia e inteligência.



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