A tarifa como capricho: Trump e seu brinquedo preferido

10.02.2026

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O Antagonista

A tarifa como capricho: Trump e seu brinquedo preferido

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Dennys Xavier
5 minutos de leitura 17.01.2026 21:37 comentários
Análise

A tarifa como capricho: Trump e seu brinquedo preferido

Não há, na tarifa anunciada, qualquer vestígio de planejamento estratégico, apenas tentativa de dobrar o mundo à força da chantagem comercial

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Dennys Xavier
5 minutos de leitura 17.01.2026 21:37 comentários 3
A tarifa como capricho: Trump e seu brinquedo preferido
Foto: Casa Branca/Joyce N. Boghosian

O anúncio, por Donald Trump, de uma tarifa de 10% sobre produtos da Dinamarca e de outros países europeus em resposta à rejeição de seu plano de comprar a Groenlândia (território autônomo sob soberania do reino dinamarquês) não pode ser tratado como mais um capítulo excêntrico da já conhecida imprevisibilidade trumpista. 

Há algo mais profundo, e mais perigoso, no gesto. 

Trata-se da transformação da política econômica em uma extensão do ego presidencial, da guerra comercial em ferramenta de retaliação moralista, e da tarifa aduaneira em instrumento de humilhação simbólica contra aqueles que se recusam a fazer parte do delírio geopolítico em curso.

A política de Trump, que um dia alegou querer restaurar a “grandeza” americana, converteu-se num projeto de institucionalização do ressentimento. E é justamente no campo da política comercial que esse ressentimento encontra sua expressão mais crua: a substituição da racionalidade econômica pela teatralidade da punição; do cálculo técnico pelo gesto passional. 

Não há, na tarifa anunciada, qualquer vestígio de planejamento estratégico. O que há é uma forma invertida de política externa: não mais uma busca pela integração diplomática por meio de incentivos, apenas uma tentativa de dobrar o mundo à força da chantagem comercial.

Se quisermos entender a gravidade dessa guinada, devemos voltar a Hayek, um dos mais celebrados nomes da assim chamada “escola austríaca de economia”, prêmio Nobel na área.  

Em Os Fundamentos da Liberdade, ele afirma: “a liberdade só é possível em uma ordem onde a coerção do poder estatal é limitada por regras gerais e previsíveis.” 

Trump faz justamente o oposto: desregula a previsibilidade, rompe pactos tácitos de boa-fé entre aliados históricos e governa como um demiurgo da tarifa, que modela o mundo à imagem dos seus afetos e rejeições. 

A Dinamarca não é mais um parceiro, mas um obstáculo pessoal. E a Groenlândia, não mais um território autônomo, mas uma peça disponível num tabuleiro imperial, cujo preço Trump supõe poder estipular sozinho.

O comércio entre nações livres, como ensinaram os grandes autores do liberalismo econômico – de Bastiat a Mises, de Smith a Hayek –, deve ser um instrumento de paz e cooperação. Ele repousa na ideia de que trocas voluntárias geram prosperidade mútua, ampliam a liberdade individual e diminuem a necessidade de conflitos armados. 

A tarifa punitiva de Trump não serve a nenhum desses propósitos. Ao contrário: ela inaugura uma lógica belicosa, onde cada parceiro comercial pode tornar-se, a qualquer momento, alvo de uma vingança econômica… bastando, para tanto, contrariar o humor presidencial do dia.

Há, portanto, uma ruptura epistemológica em curso: aquilo que no liberalismo era instrumento de liberdade, o comércio, torna-se, sob o autoritarismo narcisista, instrumento de dominação. 

O que vemos aqui é o deslocamento da função da tarifa de seu campo técnico para o campo simbólico. A tarifa deixa de ser um ajuste de balança comercial para tornar-se uma declaração de guerra emocional: o mundo não se curva à minha vontade, logo será punido. 

Tal lógica é incompatível com qualquer regime que se pretenda liberal ou civilizado.

A política comercial de Trump é o reflexo exato de uma patologia: uma vontade de poder sem freios, sem responsabilidade, sem apreço pelas mediações institucionais que garantem a estabilidade do sistema internacional. 

Não se trata mais, como em tempos normais, de discutir os méritos ou deméritos das tarifas em si. A questão é anterior e mais grave: trata-se de compreender que a racionalidade econômica foi sequestrada por um teatro de absurdos, em que a diplomacia cede lugar à chantagem, e o cálculo estratégico ao impulso pueril. 

Punir a Dinamarca por não querer vender a Groenlândia é mais do que um delírio: é a institucionalização do infantilismo político como método de governo.

E aqui, inevitavelmente, ressurge a advertência clássica de Platão: “A pior forma de tirania é aquela que nasce da democracia degenerada.” 

A comédia da tarifa caprichosa é apenas o sintoma visível de um drama mais profundo: a substituição da liberdade pelo arbítrio. 

Se a política internacional deve servir para pacificar o mundo, Trump a transforma numa arena de humilhações… e a tarifa, numa bofetada travestida de decreto.

A guerra tarifária passou a ser um instrumento de performance autoritária. Um modo de dizer ao mundo: “só haverá comércio se houver submissão.” 

Contra isso, o liberalismo autêntico ergue sua voz: não há liberdade onde há chantagem; não há comércio onde há castigo; não há ordem onde reina o desejo de um só homem.

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Dennys Xavier

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Comentários (3)

Luis Eduardo R. Caracik

19.01.2026 04:37

Ótimo artigo. E o que será que os Europeus vão fazer para se defender? Particularmente, acho que o que Trump de fato deseja é implodir a Otan e se livrar do ônus que ela representa aos Estados Unidos. Bases na Groenlândia os Estados Unidos já possuem e por meios diplomáticos poderiam ter mais. O que resta aos Europeus fazer, caso as ameaças e uso de força se materializem? Os Europeus tem um recurso estratégico enorme: as reservas em US Treasury Bonds. Basta que os Europeus comecem a trocá-los por ouro ou títulos de outros países. Fazendo isso jogarão um gorila furioso no colo de Trump.


Flavio marega

18.01.2026 19:01

Excelente texto.


Eduardo

17.01.2026 23:43

Muito bom.


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