A segunda vida de Davi Alcolumbre
Presidente do Senado, que parecia fadado a não obter reeleição, tem chances renovadas e está disposto a tudo para preservar o cargo
Enquanto o país especulava, nesta terça-feira, sobre a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, Brasília se movimentava para definir quem comandará o Senado nos próximos dois anos.
A questão é crucial para determinar o grau de governabilidade de Lula em seu quarto mandato e as chances de avançarem pautas da oposição, como o impeachment de Alexandre de Moraes.
Depois do primeiro turno das eleições, Davi Alcolumbre (União-AP) parecia fadado a perder o cargo junto com Lula. A dianteira de Flávio Bolsonaro nas urnas e o crescimento da direita no Congresso anunciavam tempos difíceis para o presidente do Senado.
Alcolumbre está encrencado no escândalo do Banco Master. Não lhe interessa ver processos sobre o tema avançarem no Congresso ou no STF.
Direita x Centrão
A direita saiu fortalecida das eleições legislativas. O PL saltou de 98 para 121 deputados e conquistou a maior bancada do Senado, com 29 integrantes.
O avanço ocorreu, em parte, às custas dos partidos do Centrão. Na Câmara, União Brasil e PSD perderam, respectivamente, seis e cinco cadeiras; no Senado, o PSD encolheu de 14 para cinco representantes.
Se Flávio Bolsonaro conquistasse a Presidência, seria difícil impedir que a nova maioria conservadora se organizasse em torno de senadores como Rogério Marinho, do PL, ou Tereza Cristina, do PP.
Mas Lula venceu. E, com sua reeleição, Alcolumbre também ganhou uma segunda vida.
Recomposição de forças
A recomposição das forças foi imediata. Na segunda-feira, um dia depois da eleição, Lula recebeu Alcolumbre e Hugo Motta no Palácio da Alvorada e prometeu o apoio do PT à recondução dos dois.
Na terça, veio o anúncio de que a Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, apoiará o político do Amapá. A decisão contrariou as pretensões de Tereza Cristina e pode abrir caminho para outras adesões do Centrão.
O movimento tem sua lógica. Partidos que perderam espaço para o PL não estão necessariamente dispostos a entregar ao bolsonarismo o comando do Congresso, mesmo tendo apoiado Flávio no segundo turno.
Alcolumbre trabalha para conquistar votos na própria direita. Segundo a Folha de S.Paulo, seus aliados cogitam negociar com Lula um indulto a Jair Bolsonaro ou articular uma anistia no Congresso, em troca de apoio à reeleição e do abandono da ofensiva pelo impeachment de ministros do STF.
A operação ainda é uma hipótese. Mas mostra até onde Alcolumbre estaria disposto a ir para preservar o poder.
Ação e reação
A direita, evidentemente, não pretende entregar o Senado sem luta. Rogério Marinho e Tereza Cristina discutem uma candidatura única e setores do PL defendem o enfrentamento mesmo diante do risco de derrota.
Outros preferem cautela. Temem repetir o erro de 2023, quando Marinho perdeu para Rodrigo Pacheco e o PL acabou afastado dos principais postos de comando da Casa.
Alcolumbre tampouco pode contar com obediência automática dos partidos do Centrão. Tereza Cristina aposta justamente em dissidências nas bancadas cujos dirigentes já anunciaram apoio ao atual presidente.
A eleição será secreta, e bastam 41 dos 81 votos para vencer. Os aliados de Alcolumbre dizem que ele já dispõe de 48; a oposição calcula apenas 38.
O resultado da disputa terá consequências que vão muito além da questão do impeachment. O Senado será decisivo para agendas como segurança pública e a condução da política econômica de Lula.
A reforma tributária é um exemplo. Durante a campanha, a equipe de Flávio Bolsonaro chegou a defender o adiamento de sua entrada em vigor. Também mostrou disposição para impedir revogar mecanismos como o split payment. O presidente do Senado pode conter ou liberar o andamento de projetos sobre esses temas.
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