A mãozinha de Moraes para o bolsonarismo
Como o ministro do STF assume o lugar de Lula na polarização
Alexandre de Moraes (foto) é especialista em dar ao bolsonarismo a relevância perdida na eleição de 2022.
Lula alopra na política econômica com aumento de impostos e gastos eleitoreiros, mas o ministro do STF já assumiu seu lugar não só na polarização, mas na retroalimentação também.
Nada há de tão boçal em condutas e lacrações bolsonaristas que Moraes não possa redimensionar como abolição do Estado Democrático de Direito… Criativo.
Banalização
Ele banaliza de tal forma o conceito de ataque à democracia que acaba até deslegitimando os processos sobre articulações político-militares para melar o resultado eleitoral, com declaração de “Estado de Defesa”, “Estado de Sítio” e “Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)”, instrumentos jamais previstos para a hipótese de insatisfação por derrota nas urnas.
Depois do voto por 14 anos de prisão para a ativista Débora dos Santos, que pintou a estátua do STF de batom, mas contra quem Moraes não apontou qualquer prova de conduta individual em outros crimes atribuídos à multidão do 8/1, a abertura de inquérito sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e nas redes sociais é uma espécie de medida preventiva contra o batom americano.
Moraes não quer ser pintado no exterior como violador de direitos humanos, como a Lei Magnitsky autoriza o governo dos EUA a fazer com quem considerar como tal, então dá uma canetada para cobrar explicações sobre a iniciativa não concretizada de sancionar ele próprio, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, autor do pedido de investigação.
Blindagem
O uso do aparato judicial do Brasil por potenciais alvos de sanções estrangeiras — para fins senão de blindagem contra elas, ao menos de revide contra o deputado federal licenciado que apresentou alegações neste sentido fora do país — fica tão escancarado, tão caricaturalmente configurado, que apenas reforça o jogo da família Bolsonaro de limpar a sujeira de seu patriarca na lama do STF.
Gonet ao menos confessa que as “evidências” conduzem a uma “ilação” sobre o objetivo de Eduardo de “interferir” no processo que atinge o pai, mas Moraes ainda consegue piorar o texto do PGR, ao comentar que “a representação criminal do Ministério Público enumera, também, inúmeras publicações e mídias que, em tese, indicam a materialidade dos delitos e indícios suficientes e razoáveis de autoria”.
Que o ministro use a expressão “inúmeras” para se referir a determinado número de postagens já ilustra sua mania de extrapolar os fatos objetivos. Que aponte “materialidade dos delitos e indícios suficientes e razoáveis de autoria”, sem estabelecer qualquer conexão entre os conteúdos e as hipóteses criminais, muito menos explicar como alguém pode interferir em processos específicos por meio de decisões de outro país sem efeito sobre esses processos, só reforça que a natureza da decisão não é técnica, nem jurídica, mas corporativista.
Festa de rodeio
Eduardo havia usado um pedido fajuto do PT por sua prisão — encaminhado de modo protocolar à PGR e depois arquivado — para justificar a seus eleitores a mudança para os EUA, onde passou a curtir a vida em festa de rodeio com sua esposa, enquanto o ex-ministro Gilson Machado pedia dinheiro via Pix para ajudar Bolsonaro a sustentar o filho autoexilado.
Nenhuma investigação sobre Eduardo estava aberta para legitimar a narrativa do risco de ser preso caso ele ficasse no Brasil, onde um monte de críticos de Moraes, atuantes no Congresso e na imprensa, seguem criticando o ministro e defendendo medidas internas e constitucionais contra seus abusos e concentração de poder.
Agora, Moraes deu ao deputado federal licenciado o pretexto que ele procurava para curtir rodeio à vontade nos EUA com chapéu de cowboy, sem data para voltar. A mãozinha do ministro para as piruetas lógicas dos bolsonaristas facilitou a crença de que Eduardo já estaria preso em solo brasileiro pelo que passou a tentar fazer em solo americano.
Discurso antissistema
O acordão de 2019 pela impunidade dos acusados de crimes de colarinho branco uniu bolsonarismo, lulismo, Centrão, velhos tucanos, a maior parte da imprensa e o STF, mas Moraes vem conseguindo dar novamente ares de legitimidade ao discurso antissistema (seletivo, claro) dos Bolsonaro, os maiores aliados que Lula, Dias Toffoli e Gilmar Mendes tiveram contra a Operação Lava Jato e a CPI da Lava Toga.
Ao longo do tempo, portanto, lulismo, bolsonarismo e alexandrismo vêm se retroalimentando em revezamento, enquanto o Brasil, sem alternativa sólida e independente das três correntes que disputam o protagonismo público, chafurda nesse triplo lamaçal.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (7)
FRANCISCO JUNIOR
27.05.2025 23:22Xandão mandava bem até determinado ponto, foi muito bem nas eleições de 2022. Mas com o inquérito infinito das fake news e todas essas decisões mencionadas pelo Felipe Moura, vai colocar tudo a perder em algum momento. Talvez tudo infelizmente acabe como a Lava Jato. Esse país não perde a chance de continuar atrasado.
Alexandre Ataliba Do Couto Resende
27.05.2025 17:16E nós do povo nos ferrando com uma economia em frangalhas, enquanto o circo está armado.
ale
27.05.2025 16:29Sensacional, Felipe, que maravilha ler seus textos, sempre elegantes e fundamentados em fatos!
FRANCISCO De Assis Noronha
27.05.2025 15:38Foram eleitos usando a bandeira da lava jato e depois traíram e acabaram com a Lava jato, vangloriando-se. Foram contra a CPI da lava toga e juntaram-se a ex-mensaleiros....etc...Acabaram com toda nossa esperança do Brasil sair desse buraco da corrupção com os corruptos de colarinho branco na cadeia. Portanto, todo castigo é pouco para esse bando de traidores!
LuÃs Silviano Marka
27.05.2025 15:21Espero que as idiotices do cabe... ops, Ministro Alexandre de Moraes, se tornem o novo "20 centavos" que levou milhões às ruas alguns anos atrás.
Maria Candida Junqueira Zacharias
27.05.2025 15:13Excelente texto . Explana didaticamente o que vem ocorrendo.
Fabio B
27.05.2025 14:35O Xandão dá mesmo vários presentes ao Bolsonarismo.