A inútil exploração eleitoral do Pix para convertidos
Eis a característica mais marcante da política brasileira atual: uma pobreza intelectual digna de terceiro mundo
Se depender das redes sociais brasileiras, o Pix corre dois riscos existenciais ao mesmo tempo. Se Lula vencer, será taxado. Se Flávio Bolsonaro vencer, será entregue aos Estados Unidos. Como as duas coisas não podem ser verdade simultaneamente, sobra apenas uma conclusão: alguém está vendendo medo. Provavelmente todos.
A mais recente crise começou após uma entrevista de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Ao comentar a investigação comercial aberta pelo governo americano contra práticas brasileiras na área de pagamentos digitais, o deputado mencionou o Pix e o Zelle, sistema semelhante ao nosso, utilizado pelos americanos. Bastou para a lacração começar.
Em poucas horas, a máquina de propaganda governista transformou uma declaração confusa numa suposta prova de que o bolsonarismo pretende entregar um dos maiores casos de sucesso da tecnologia financeira brasileira para Donald Trump e seus inúmeros e espúrios interesses econômicos.
O contra-ataque piorou
Como quase sempre acontece na política brasileira, sobretudo nas hostes bolsonaristas, a reação foi tão ruim quanto o ataque.
Tentando conter os danos, Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo produzido com inteligência artificial atribuindo ao governo Jair Bolsonaro a criação do Pix. A intenção era retirar de Lula o benefício político da narrativa construída pela esquerda. Acabou produzindo outra discussão igualmente inútil.
A essa altura, milhões de brasileiros já estavam novamente divididos entre duas versões fantasiosas da realidade. De um lado, lulistas convencidos de que os Bolsonaro querem desmontar o Pix. De outro, bolsonaristas certos de que Lula continua procurando uma forma de taxá-lo. Ou seja, nada de novo.
Política para torcidas
O detalhe curioso é que nenhuma dessas campanhas busca convencer quem pensa diferente.
O lulopetista que compartilha vídeos afirmando que Trump quer tomar o Pix não está tentando dialogar com um eleitor bolsonarista. Está apenas reafirmando para seus próprios aliados que Bolsonaro representa uma ameaça permanente ao país.
O mesmo vale para o bolsonarista que repete, há anos, que o governo prepara uma tributação sobre transferências eletrônicas. Seu objetivo não é converter eleitores de Lula. É reforçar a identidade e a indignação do próprio grupo.
A disputa não muda voto
Eis a característica mais marcante da política brasileira atual: uma pobreza intelectual digna de terceiro mundo. Nenhuma discussão sobre desenvolvimento econômico e social, planos de curto, médio e longo prazos, nada. Apenas factoides para as redes sociais.
Quase toda comunicação deixou de ser persuasão e virou reafirmação. Os políticos falam para quem já concorda. Os influenciadores produzem conteúdo para quem já acredita. Os algoritmos entregam argumentos para quem já está convencido.
Nesse ambiente tóxico, o Pix virou apenas mais uma ferramenta eleitoral. Não importa se pertence ao Banco Central, se foi concebido por técnicos ou se funciona como política de Estado. O que importa é sua capacidade de despertar medo, raiva e engajamento, na falta de assuntos que deveriam importar à sociedade. É apenas propaganda para convertidos. E convertidos, por definição, já escolheram seu lado há muito tempo.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)