A guerra e as versões sobre a guerra
Enquanto todos reivindicam a vitória, mundo assiste ao esfacelamento do arranjo geopolítico pós-45
Ok, não teremos a 3ª guerra mundial. Por enquanto. Especialistas de um lado ensinam que o Irã mais late mais do que enriquece urânio; especialistas de outro estão certos de que na bomba só faltava o pino. Especialistas do meio desconfiam dos especialistas dos lados. Netanyahu achou melhor prevenir que retaliar. China e Rússia ofereceram apoio (i)moral ao regime dos aiatolás e mudaram de assunto. Trump chegou atrasado mas quis batizar a criança. Irã jura que ganhou. Israel garante que venceu. EUA afirmam que prevaleceram. Lula acredita, como Pelé, que quem parou a guerra foi ele.
Que bom para o restante do mundo, que assiste a tudo sem ter muito o que fazer a respeito. Só rezar. Rezar baixinho, de preferência, para não acordar os valentões da rua. Ou, no caso brasileiro, rezar e torcer para que o voluntarioso presidente, que perde todas as suas brigas no Congresso, que tem perdido até tiroteio de pistolinha de água nas redes sociais, evite declarações que nos comprometam lá fora mais do que já estamos comprometidos aqui dentro. O Brasil não está com essa bola ou essa bomba toda para dar palpite.
Seja como for, com guerra ou sem guerra, tenho minhas dúvidas sobre a conveniência e as consequências futuras da investida americana. O que exatamente significa ou significará? É um recado do que serão os próximos anos? Não parecia fazer muito sentido, já que a promessa de Trump era to make America great again e dar banana, minto, Big Mac para o mundo. Em português: retirar o time e os imigrantes de campo, e acentuar o isolacionismo. De repente, com um ataque desses, mexeu num vespeiro. As vespas, cedo ou tarde, sairão. Mas não sentido procurar sentido nas atitudes de Trump.
O que se espera da América é que seja, de fato e não apenas de direito, um país – uma ideia de país, embora inalcançável plenamente – em que a liberdade e os direitos humanos (e culturais) sejam levados a sério. Mais do que o ataque em si mesmo, as bravatas de Trump, com a típica arrogância do caneludo que é o dono da bola do mundo, fazem sombra aos ideais dos Fundadores.
É também sempre importante lembrar que em meio aos tiranos, burocratas, drones e aiatolás, deste ou daquele país, há gente de verdade que não têm nada que ver com a geopolítica de mentira. Numa guerra, declarada ou subentendida, os que sofrem não são os que a iniciam. Não acredito, por óbvio, no pacifismo de John Lennon e derivados, nem defendo que tudo o que há de errado se resume à geopolítica ocidental a bagunçar o idílico coreto do mundo.
Guerras acontecem, conflitos surgem, terroristas existem, bombas explodem, pregadores pregam, ameaças são feitas e, portanto, organizar um pouquinho a violência, torná-la proporcional, circunscrevê-la e dar-lhe algum sentido, são providências inadiáveis. Gostemos ou não. Entretanto, torcer pelo conflito, provocá-lo, tratá-lo como inevitável, comemorá-lo como vitória ideológica, brincar de “meu país é melhor do que o seu”, inserir-se nos livros de história antes que a história seja contada, ora, faça-me o favor, já deveríamos estar grandinhos pra isso.
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