A eleição mais medíocre e manipulada desde a redemocratização
Eu, particularmente, tenho algo melhor a fazer. Não votar em trastes e fiscalizar e denunciar todas as besteiras que certamente farão
O Brasil chega ao final do primeiro turno de 2026 depois de uma campanha presidencial em que praticamente não se discutiu o país. Educação, saúde, produtividade, segurança pública, contas públicas, reforma administrativa, infraestrutura, crescimento econômico, inteligência artificial, transição energética e nosso lugar no mundo passaram anos-luz longe do debate. Em seu lugar, picanha, Nossa Senhora Aparecida, STF, Jair Bolsonaro, Donald Trump, bets, pix e outras distrações ocuparam o palco.
De um lado, Lula e o PT explorando mais uma vez o medo do bolsonarismo. Do outro, Flávio Bolsonaro e seus aliados explorando mais uma vez o medo do petismo. O Brasil de 220 milhões de habitantes, atolado em problemas estruturais que atravessam décadas, foi reduzido à mesma escolha binária e medíocre que envenena o debate público há anos. E o mais impressionante é que os dois principais candidatos conseguiram atravessar o primeiro turno sem se enfrentar uma única vez num debate televisionado.
As alternativas Romeu Zema e Ronaldo Caiado, dois ex-governadores com boas realizações administrativas para apresentar, permaneceram eleitoralmente inexpressivos. Augusto Cury transformou sua candidatura em mera excentricidade eleitoral. Renan Santos, o estreante, preferiu construir sua presença pública por meio de uma agressividade reacionária, que frequentemente substituiu argumento por provocação e ofensa. E o eleitor, que esperava algo minimamente adulto, ficou órfão outra vez.
O Judiciário entra em campo
Como se a mediocridade política não bastasse, STF e TSE resolveram participar da eleição de maneira incompatível com o que se espera de tribunais encarregados de proteger a legitimidade do processo. Atuaram, inclusive, interferindo sobre os limites de cada tribunal, depois de ministros do Supremo derrubarem decisões da Justiça Eleitoral. E nada simbolizou melhor essa confusão do que o inacreditável episódio do debate da Globo, que acabou cancelado após decisões exóticas do judiciário bananeiro.
As regras eleitorais determinavam a participação de candidatos de partidos com representação mínima de cinco parlamentares e estabeleceram que as demais condições fossem acordadas entre emissoras e partidos. A Globo informou as condições e obteve a concordância das legendas. Lula decidiu faltar e, no próprio dia do debate, a ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a emissora de manter o púlpito vazio com o nome do presidente e também de permitir perguntas dirigidas ao candidato ausente.
Antes dela, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, havia determinado a inclusão de Zema no debate, adotando interpretação diferente sobre a representação parlamentar do Novo. Já Renan Santos, que recorrera ao STF, viu Cármen Lúcia rejeitar seu pedido de inclusão. Horas depois, porém, Gilmar Mendes desrespeitou a colega e mudou tudo. Resultado: a Globo, acertadamente, cancelou o debate por insegurança jurídica e por interferências indevidas na liberdade de imprensa e da própria emissora em organizar o evento.
As urnas e o que nos espera
O próximo presidente irá encontrar um país cuja dívida bruta alcança 82,9% do PIB e o desequilíbrio das contas públicas pressiona juros, investimentos e a capacidade do Estado de gastar onde precisa. A infraestrutura recebe pouco mais da metade do considerado necessário para superar gargalos. A produtividade continua baixa, a educação não entrega capital humano produtivo, a segurança pública convive com organizações criminosas cada vez mais poderosas e o envelhecimento da população pressiona a Previdência.
Lula oferece, em essência, a continuidade do modelo atual. Apenas as medidas anunciadas na reta final da eleição acrescentaram R$ 33 bilhões em impacto fiscal não previsto no Orçamento de 2027. Já Flávio Bolsonaro apresenta um discurso fiscalmente mais duro: cortar pelo menos dez ministérios, reduzir cargos e despesas administrativas, retomar privatizações, blá, blá, blá. Na campanha, porém, não detalhou quais despesas obrigatórias serão atingidas nem como funcionará o novo teto.
Assim, um promete gastar mais sem demonstrar como fechará a conta; e o outro promete cortar sem dizer onde meterá a tesoura. Depois de uma campanha em que falaram sobre quase tudo, menos um com o outro e sobre o país real, é entre essas duas interrogações que o brasileiro irá às urnas, neste domingo, escolher quem infernizará nossas vidas pelos próximos quatro anos. Eu, particularmente, tenho algo melhor a fazer. Não votar em trastes e fiscalizar e denunciar todas as besteiras que certamente farão.
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