A confissão de Bolsonaro sobre o voo para a Flórida
Ex-presidente tentou justificar sua saída do Brasil, quando abandonou ativistas na porta dos quartéis
1.
Jair Bolsonaro tentou justificar seu voo para a Flórida com teorias da conspiração sobre prisão e assassinato:
“O golpe deles só não foi perfeito porque, no dia 30 de dezembro de 2022, eu saí do Brasil. Algo me avisou que alguma coisa ia acontecer. Se eu tivesse [sic] no Brasil, seria preso na noite de 8 de janeiro e estaria apodrecendo na cadeia até hoje ou, quem sabe, assassinado por esses mesmos que botaram esse vagabundo na presidência”, disse o ex-presidente na avenida Paulista, no ato de domingo, 6.
Na verdade, Bolsonaro abandonou na porta dos quartéis as massas de manobra que acreditaram em suas narrativas (parte delas, sobre urnas eletrônicas, plantadas pelo “pessoal” de Mauro Cid na internet, como mostrou mensagem de seu celular encontrada pela Polícia Federal).
Na ocasião, viralizaram vídeos gravados por dois bolsonaristas dos acampamentos.
O primeiro dizia:
“Pessoal, eu sei que é difícil. Mas é um absurdo isso, gente! Nós demos a nossa cara a tapa. A gente lutou, a gente acreditou. Nós não temos pra onde fugir, eles têm! E agora? Quem vai proteger a minha família? Quem? Eu devo ser caçado [perseguido judicialmente], como vários que estão aqui vão ser caçados. Eu não acredito no que está acontecendo!”
O segundo sentenciava:
“Acabou, gente. O que nós, bolsonaristas, vamos precisar, a partir de segunda (2/1/2023), é procurar um psiquiatra. Porque nós ficamos doentes por causa dessa desgraça desse Bolsonaro. É um desgraçado, covarde, que fugiu. Agora está todo mundo com essa doença aí, ó. Quem quiser ganhar dinheiro abre uma clínica de psiquiatra. Vai ficar rico, de tanto bolsonarista que vai ter que procurar um psiquiatra. Porque ficou todo mundo doente, não pensa mais, só ‘Bolsonaro, Bolsonaro, Bolsonaro’. Eu quero que Bolsonaro vá prum quinto dos infernos! É, uai. Acabou, acabou, acabou.”
Agora o ex-presidente confessa que foi para os Estados Unidos em avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com medo de ser preso, ou seja: acendeu o pavio e saiu voando antes da explosão do 8/1, que resultaria na prisão dos aloprados, depois chamados por ele de “bobos” e “baderneiros”.
Bolsonaro só voltou a precisar dessas pessoas para camuflar em pedido de anistia geral sua articulação pela própria impunidade, explorando a indignação alheia com as penas excessivas impostas pelo STF.
Ele só pensou em si próprio, antes e depois.
2.
“Nunca odeie seus inimigos. Isso afeta seu julgamento”, ensinava Michael Corleone, o poderoso chefão interpretado por Al Pacino.
Os populistas, por definição, exploram o “nós” contra “eles”, aproveitando-se de julgamentos afetados pelo ódio que fomentam.
Lula se aproveita de quem odeia Jair Bolsonaro. Bolsonaro se aproveita de quem odeia Lula. Ambos se retroalimentam, não sem a colaboração nada sutil de Alexandre de Moraes. A estratégia de cada um consiste em fazer crer que não há opção ao outro fora da adesão a si.
O problema do adesismo político é que ele aprisiona o cérebro dentro de uma bolha de narrativas sintéticas e enganosas, aceitas por automatismo tribal, em detrimento de fatos, lógica, coerência, moralidade e Justiça.
Torna-se imperativo escolher e ser fiel não a princípios, mas a um lado, acima de tudo.
Perde-se a capacidade de isolar os elementos da realidade, para formar juízos separados a respeito de cada um, porque a fidelidade ao lado impõe a aceitação de todo um pacote de pautas, condutas e movimentos indissociáveis.
Qualquer cidadão não cooptado entende, por exemplo, que é possível ser contra e criticar penas excessivas impostas pelo STF aos aloprados do 8/1, sem aderir a um ato de rua organizado para lavar a imagem do réu Bolsonaro sob o disfarce de defesa da anistia.
Para pessoas de julgamento afetado, porém, repudiar o oportunismo de seu populista de estimação é o mesmo que combater todas as pautas justas que ele diz representar, porque ele é a encarnação delas e quem não está ao seu lado só pode estar alinhado ao lado oposto.
Não importa que o populista de estimação tenha contribuído para o estado de coisas que ele passou a denunciar por interesses pessoais: as alegadas necessidades do momento sempre prevalecem à assimilação moral da história.
Por isso, quem se deixa levar por um lado pelo ódio ao outro vive preso a um eterno presente sem lições do passado, sonhando com um futuro utópico sabotado pelas próprias ações.
Nunca ame políticos. Isso atrasa o país inteiro.
Leia mais: Como Bolsonaro pretende “sair dessa”
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (7)
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
12.04.2025 06:46Lula é o que sempre foi, um populista corrupto e oportunista que a muito tempo aprendeu que pode falar a bobagem que queira ou fazer a promessa que quiser que no povaréu isso não tem importância. Ele sempre apostou na ignorância e falta de memória do povão e tornou-se no imaginário da esquerda mais esclarecida aquele líder carismático, "do povo", um amálgama de Fidel na Sierra Maestra com Mao Zedong na Grande Marcha. Bolsonaro é o que sempre foi, um político monotemático, autoritário, meio paranoico, de repente, guindado a líder da direita pelo povão decepcionado com o outro. O fator comum: uma maioria da população ignorante, que só se liga mesmo em futebol, BBB e novelas, que só enxerga as extremidades do espectro político e que não passa dos slogans de campanha. Estavam na m..., correram para a b..., não gostaram e voltaram para a m..., agora reclamam do fedor. É o Brasil.
Mayra Fanuchi
07.04.2025 21:44Parabéns, Felipe, pelo melhor jornalismo do Brasil! Este excepcional artigo e o excelente programa de hoje honram o DIA DO JORNALISTA, desvelando a idolatria autodestrutiva que cegou o país! O trabalho dos Antagonistas nos dá esperança de um futuro iluminado pela razão e por princípios superiores a personalidades!
Fabio B
07.04.2025 19:14Pedrão, de onde você tirou essa narrativa? Não tem isso de "herói morto", isso é delírio. O artigo apenas mostra o óbvio: Bolsonaro fugiu, largou a militância que incitou e agora tenta justificar sua covardia com fantasia de conspiração. Quem ainda defende isso precisa revisar o conceito de liderança, ou assumir de vez que idolatra um político, não por princípios, mas por culto cego. Bolsonarismo virou seita: qualquer crítica vira “ataque” e qualquer verdade, “narrativa”.
Pedro Boer
07.04.2025 12:48O articulista quer de todo jeito nos impor a narrativa de que rra melhor o Bolsonaro como "herói morto. Não sabe o que diz.
Fabio B
07.04.2025 10:01O que eu mais lembro é ele no dia seguintes tentado se descolar e desdenhando desses doidinhos que foram presos, chamando-os de baderneiros e infiltrados.
Um_velho_na_janela
07.04.2025 09:44Com essa análise lúcida, realista e honesta da paranoia insana em que o país foi jogado pela praga do bolsonarismo, querendo ser mais tóxico do que o petismo, Felipe, mais uma vez e afirma como o melhor e mais confiável jornalista nesta bagunça chamada Brasil.
Denise Pereira da Silva
07.04.2025 08:54Parece que os brasileiros perderam totalmente a noção de moralidade e de um propósito de existência da sociedade. Vivemos numa era de superficialidade e hipocrisia coletivas, onde a qualidade de vida em si é muito menos importante do que aparentar uma qualidade de vida utópica. Só se pensa em levar vantagem pessoal, mesmo que fugaz, não importando as consequências que isso acarretará para os demais.