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A estratégia oculta da falsa frente ampla

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Augusto de Franco
8 minutos de leitura 25.12.2022 13:49 comentários
Opinião

A estratégia oculta da falsa frente ampla

Todos os cargos realmente importantes de governo já estão nas mãos de petistas (mais de 80%) ou de satelizados pelo PT (menos de 20%). O que vem agora é troca de cargos menores por...

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Augusto de Franco
8 minutos de leitura 25.12.2022 13:49 comentários 0
A estratégia oculta da falsa frente ampla
Foto: Ricardo Stuckert
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Todos os cargos realmente importantes de governo já estão nas mãos de petistas (mais de 80%) ou de satelizados pelo PT (menos de 20%). O que vem agora é troca de cargos menores por apoio. Isso não é frente ampla, nem aqui, nem na China. No que tange ao chamado ‘centrão’ é um tipo (legal) de mensalão.

Para examinar esse problema é preciso fazer algumas distinções importantes. Frente ampla é uma coalização de forças políticas com base em um programa mínimo comum e com uma coordenação plural conjunta, que tem como objetivo implantar um projeto compartilhado para o país. Em geral as frentes amplas são recursos da política democrática para evitar que setores antidemocráticos ocupem os governos e os parlamentos ou ganhem grande importância na sociedade.

Frente ampla não é frente de esquerda. As frentes de esquerda são legítimas, mas são coalizões de forças políticas de um campo ideológico (que se diz ou é considerado de esquerda) que têm como objetivo alterar a correlação de forças a favor desse campo. Em geral as frentes de esquerda são hegemonizadas por uma organização política mais forte que sateliza as demais. Desde que disputa eleições no Brasil o PT faz frentes de esquerda, forçando siglas menores como o PCdoB, o PV, mais recentemente o PSOL e a Rede, às vezes o PDT, quase sempre o PSB, a orbitarem em torno do partido. A força gravitacional do PT acaba arrastando (pelo menos em torno de suas candidaturas majoritárias) siglas ainda mais à esquerda, como o PSTU, o PCB e a UP.

Precisando de votos de centro para vencer a disputa com Bolsonaro, Lula e o PT lançaram mão de um ardil: chamar sua costumeira frente de esquerda de “Frente Ampla”. Isso colou num primeiro momento porque, de fato, um amplo leque de forças democráticas se formou para impedir a reeleição de Bolsonaro. Mas foi uma convergência eleitoral, não uma frente ampla. Com exceção do Alckmin (que não é uma força política e sim uma pessoa que ficou sem espaço no PSDB e resolveu aderir individualmente à Lula por motivos fúteis, pegando, para tanto, o ônibus chamado PSB), a “frente ampla” petista é composta pelas forças que ficaram anos com Lula ou Dilma no governo. Zero novidade.

Fazer uma frente ampla não é capturar desgarrados dispostos a prestar vassalagem. É necessário fazer acordos políticos, ceder, construir consensos – sem eliminar dissensos – com os diferentes, não somente com os iguais. O PT não fez nada disso. Fez, sim, uma falsa frente ampla de esquerda, quer dizer, uma coalizão de forças políticas do seu campo ideológico que recrutou desavisados de outros campos para dar a impressão de que tem um programa comum (quando não tem) e uma coordenação conjunta (que também não existe).

Depois de conseguir plantar no jornalismo e no colunismo políticos a ideia de frente ampla, o PT partiu então para outra maquiagem. Chamar também de frente ampla (ampliada) o tradicional acordão de forças políticas que tem como objetivo assegurar maioria para o governo com base na troca de cargos (e verbas) por apoio. Essa falsa frente ampla fisiológica, na sua forma mais primitiva (e ilegal), foi chamada de mensalão.

A “frente ampla” petista nunca foi para governar. Foi para ganhar a eleição e ponto. Eleito Lula (por um triz) – o que não teria ocorrido sem a ajuda de setores de centro do espectro político nacional – cabe agora ressignificar sua “frente ampla” como uma frente contra o fascismo (bolsonarista). Sob o pretexto de que é preciso manter a “frente ampla” para evitar a volta de Bolsonaro, desenha-se aqui uma estratégia cujo objetivo real é impedir a formação de um centro democrático liberal no Brasil, assegurando uma hegemonia petista de longa duração. Sim, é preciso assegurar que o governo Lula seja efetivamente um governo de transição: uma transição para outro governo do PT. Por isso a preocupação de alocar Simone Tebet, a única representante acidental dos setores democrático liberais (ou seja, não-populistas) que sobrou, em um cargo de menor importância no governo.

Restou provado que Lula não queria Simone na Educação ou no Desenvolvimento Social. Tanto é assim que colocou petistas puro-sangue nas duas pastas. Ele também não queria Marina no Meio Ambiente e então promoveu um jogo sujo para passar a ideia de que as duas (Simone e Marina) estariam disputando a mesma pasta. É falso como uma nota de 13 reais. No final,Lula  teve que engolir Marina (que era uma espécie de candidata natural), mas isso não altera a natureza da frente de esquerda travestida de frente ampla. Marina é (e sempre foi) do campo ideológico da esquerda: foi ministra do primeiro governo Lula e seu partido, a Rede, se dispôs a conestar toda a farsa da frente ampla.

A operação lulopetista visa impedir a formação de uma oposição democrática. Para manter a dinâmica bipolar (“nós contra eles”) da qual vivem os populismos, ou seja, para continuar praticando a política como continuação da guerra por outros meios, que alimenta o lulopetismo e retroalimenta o bolsonarismo, Lula e o PT vão dizer que toda oposição ao seu governo é, na verdade, uma oposição à democracia. Não é que eles não queiram oposição. Pelo contrário, desejam ardentemente uma oposição: bolsonarista. O que eles não querem, de jeito nenhum, é uma oposição democrática não-populista (quer dizer, liberal). Porque isso atrapalha a dominação total do lulopetismo, que deve ser identificado com a própria democracia (contra o fascismo). Esse é o objetivo oculto da transição, que começou com os Jogos Vorazes travados no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília e que vai continuar nos palácios do Planalto e da Alvorada: identificar o lulopetismo com a democracia, reduzindo a pluralidade democrática, sem a qual não pode haver democracia liberal, a um bloco único de forças políticas hegemonizado pelo PT.

Ora, nenhum regime político, em qualquer país do mundo ou época da história, chegou a ser uma democracia liberal sem pluralidade democrática e sem oposição democrática. Mas quem disse que Lula e o PT querem uma democracia liberal? Não querem. Querem, sim, uma democracia eleitoral: um regime que possam continuar parasitando para ganhar eleições sucessivamente e ficar no governo para sempre (ou enquanto der).

Claro que isso é diferente de Bolsonaro, que queria (e continua querendo) converter nossa democracia eleitoral em uma autocracia eleitoral, um regime claramente iliberal. O PT, não. Quer manter indefinidamente nossa democracia eleitoral como uma democracia (apenas) eleitoral, quer dizer, como um regime democrático, sim, porém não-liberal.

Segundo dados do V-Dem Institute (Universidade de Gotemburgo) de 2022, no universo de quase 180 países do globo, os democratas liberais preferem os regimes vigentes nas 34 democracias liberais aos regimes vigentes nas 55 democracias (apenas) eleitorais e, é claro, aos regimes vigentes nas 60 autocracias eleitorais e nas 30 autocracias fechadas (não-eleitorais) que ainda remanescem no mundo. Não é tão difícil entender isso, se apelarmos para exemplos concretos (em ordem alfabética):

O que é preferível, o regime da Austrália (democracia liberal) ou os regimes vigentes na Argentina (democracia eleitoral), na Albânia (autocracia eleitoral) ou no Afeganistão (democracia fechada)? O que é preferível: o regime da Bélgica ou os regimes da Bolívia (e do Brasil), de Belarus ou do Bareim? O regime do Canadá (e do Chile) ou os regimes da Colômbia, do Congo ou de Cuba? Pulando logo, por amor à brevidade, para a letra ‘s’ do alfabeto: o que é preferível: o regime da Suécia, ou os do Senegal, da Somália ou da Síria?

Nas comparações acima, os democratas liberais preferem os primeiros tipos de regime (democracias liberais) – onde a pluralidade democrática e as oposições democráticas existem e são valorizadas – aos três tipos seguintes (democracias eleitorais, autocracias eleitorais e autocracias fechadas). Lula e o PT, não. Preferem, juntamente com seus aliados ideológicos tradicionais (socialistas), os segundos (democracias eleitorais, ditas “de esquerda”, como Bolívia, Honduras, Argentina, México, Colômbia e Peru (pelo menos antes do malfadado golpe e da prisão de Castillo). Muitos militantes petistas, silenciados por Lula para não atrapalhar a sua falsa frente ampla, preferem, in pectore, os terceiros (autocracias eleitorais também de esquerda, como Venezuela, Nicarágua e Angola), quando não os quartos (autocracias fechadas de esquerda, como Cuba ou China).

Se Simone aceitar um “regalito” para lavar a “frente ampla” petista (um cargo humilhante, porque incompatível com o seu decisivo papel na eleição de Lula), deverá dar logo o próximo passo: se filiar ao PT e entrar na tendência majoritária (a de Lula). Do contrário será fagocitada. Mas será cobrada por ter renunciado ao papel de ajudar a liderar uma legítima e necessária oposição democrática no Brasil.

Infelizmente, se isso vier a acontecer, a democracia brasileira continuará sendo uma democracia eleitoral, mas se distanciará cada vez mais de uma democracia liberal.

*Augusto de Franco é escritor e palestrante.

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