Os petistas e a bula de remédio

04.11.2026

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O Antagonista
Os petistas e a bula de remédio
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Mario Sabino
5 minutos de leitura 23.11.2021 12:03 comentários
Opinião

Os petistas e a bula de remédio

O mais nefasto efeito político-jurídico do governo de Jair Bolsonaro foi a ressurreição de Lula (foto) e da sua organização. O presidente da República e os seus energúmenos intra e extrapalacianos, por meio das suas falas e manifestações grotescas contra as instituições -- hoje compostas por gente bastante criticável, sim, mas que não podem ser canceladas, sob pena de sobrevir coisa ainda pior --, conseguiram transformar o chefão petista et caterva em apóstolos da democracia, aos olhos dos ingênuos e dos esquecidos, que, infelizmente, conta-se às dezenas de milhões no Brasil...

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Mario Sabino
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Os petistas e a bula de remédio
Reprodução: Youtube/Lula

O mais nefasto efeito político-jurídico do governo de Jair Bolsonaro foi a ressurreição de Lula (foto) e da sua organização. O presidente da República e os seus energúmenos intra e extrapalacianos, por meio das suas falas e manifestações grotescas contra as instituições — hoje compostas por gente bastante criticável, sim, mas que não podem ser canceladas, sob pena de sobrevir coisa ainda pior –, conseguiram transformar o chefão petista et caterva em apóstolos da democracia, aos olhos dos ingênuos e dos esquecidos, que, infelizmente, conta-se às dezenas de milhões no Brasil.

O desprezo de Lula e do PT pela democracia, no entanto, sempre esteve presente na história de ambos — da resistência em chancelar a Constituição de 1988 (pelos motivos errados, porque queria um texto mais radical) ao financiamento de campanhas com dinheiro roubado da Petrobras, passando pela compra de parlamentares no mensalão, a tentativa de amordaçar a imprensa (objetivo que continua no horizonte, como reitera o próprio Lula), a elaboração de dossiês falsos para atingir a reputação de adversários, o aparelhamento de parte da Polícia Federal e o financiamento de blogs sujos para enxovalhar a reputação de adversários.

Lula é um pragmático que compõe com empresários e banqueiros, mas o pragmatismo dele não apaga a sua índole autoritária e a dos seus comparsas — que só não prevalece pelo mesmo motivo que impediu Jair Bolsonaro de seguir o seu plano abilolado de dar um autogolpe: o país, apesar de tudo, é melhor do que ambos. Temos uma sociedade que, quando as ameaças se fazem mais gritantes, reafirma o seu apreço pela democracia e repele as tentativas de destruir o que foi duramente conquistado.

Não se deve subestimar, contudo, a capacidade do Partido dos Trabalhadores e do seu líder máximo e incontrastável de trabalhar, justamente, contra a democracia. Ao fim e ao cabo, ela, a democracia, nunca foi um valor universal para essa gente. É valor estratégico, um meio de chegar ao poder e perpetuar-se nele, como mostram todos os fatos listados em parágrafo anterior.  A nocividade operacional do bolsonarismo foi apropriar-se indebitamente dessa verdade sobre o petismo, assim como fez com a Lava Jato, e emoldurá-la por um discurso de extrema-direita feito sob medida para que ela fosse deslegitimada, em benefício da esquerda. Foi esse processo de deslegitimação que possibilitou a Lula e os seus sequazes voltarem ao palco político.

Eles se sentem tão à vontade neste momento que não escondem a sua afeição por ditaduras de esquerda — não que já não tenham demonstrado isso sobejamente, mas é que tudo fica ainda mais espantoso quando a democracia brasileira parece ter sido muito ameaçada por Jair Bolsonaro e os petistas são vistos como partícipes do “polo democrático”. Lula não apenas continua a fazer a apologia do regime cubano, dizendo que, se não fosse pelo embargo americano, Cuba seria uma Holanda, como tem o desassombro de comparar o ditador nicaraguense Daniel Ortega à primeira-ministra alemã Angela Merkel. Dilma Rousseff, por sua vez, vocalizou ontem a sua admiração pelo regime autoritário chinês. Ela afirmou, sem ruborizar, que “a China, eu acho que ela representa uma luz nessa situação de absoluta decadência, escuridão, que é atravessada pelas sociedades ocidentais”.

Não tratemos essas falas como observações folclóricas: eles realmente acreditam que as diversas ditaduras de esquerda são os piores regimes da história, afora todos os outros já tentados. E gostariam, sim, de implantar uma ditadura de esquerda no Brasil. Aliás, Lula e seus parceiros ajudaram enormente o tirano Hugo Chávez na Venezuela, com o dinheiro do pagador de impostos brasileiro. O PT nunca teve simpatia pela alternância de poder, pela imprensa livre, pela liberdade de expressão contrária ao seu ideário e pela economia de mercado. E jamais terá porque seria ir contra a sua própria natureza.

Lembro que, quando o partido quis implantar um Conselho Federal de Jornalismo, em 2004, para calar a imprensa (e a eclosão dali a pouco do escândalo do mensalão logo revelaria qual era o objetivo imediato dessa medida felizmente abortada graças à reação dos cidadãos), o petista Luiz Gushiken, então chefe da Secretaria de Comunicação do governo, pediu para almoçar aqui em São Paulo com a direção da revista Veja, da qual eu era o número 2. No almoço, ele quis saber porque, afinal de contas, nós éramos contra a criação do tal conselho. “Bula de remédio também tem informação e precisa de controle, não é? Então, jornalismo é a mesma coisa”, afirmou Luiz Gushiken, para a nossa incredulidade. Tivemos de explicar a ele, então, as diferenças entre bula de remédio e jornalismo. “Bula de remédio não tem reportagem investigativa sobre poderosos, não tem denúncias, não tem opinião”, dissemos a Luiz Gushiken. “Não trate a imprensa como aspirina, ministro, a função dela é dar dor de cabeça”, concluí.

Escrevi no Twitter que não há nada de extraordinário em Lula e Dilma fazerem o elogio de ditaduras de esquerda; que o extraordinário é jornalista afirmar que o PT é democrático. Na verdade, é assustador.

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Mario Sabino

Mario Sabino é jornalista, escritor e sócio-fundador de O Antagonista. Escreve sobre política e cultura. Foi redator-chefe da revista Veja.

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