Ele já teve 1.100 lojas e agora jura: ‘varejo nunca mais
Aos 57 anos, Ricardo Nunes comanda desde 2022 uma empresa de educação para empresários enquanto a antiga rede enfrenta nova falência na Justiça de São Paulo
1.100 lojas, 45 mil funcionários e faturamento anual de R$ 12 bilhões: esses são os números que Ricardo Nunes atribui ao auge da Ricardo Eletro, a rede de eletrodomésticos e móveis que fundou em Divinópolis (MG). Aos 57 anos, o empresário afirma que não pretende abrir lojas de novo. “Varejo nunca mais”, disse em entrevista publicada nesta segunda-feira (26) pela revista Exame, ao falar da aposta atual: uma empresa que ensina gestão a donos de negócios.
Das mexericas em Divinópolis a 1.100 lojas pelo país
A trajetória começa bem antes da primeira vitrine. Depois da morte do pai, Nunes vendeu mexericas para ajudar a mãe. Por cerca de cinco anos, também revendeu de porta em porta brinquedos e bichos de pelúcia comprados na Rua 25 de Março, em São Paulo.
Em 1989, ele abriu uma loja de 20 metros quadrados, embrião da Ricardo Eletro. A rede cresceu e, em 2010, se uniu à Insinuante para formar a holding Máquina de Vendas, uma das maiores do varejo de eletromóveis do país.
O empresário conta que aprendeu controle de estoque e relatórios de gestão com Samuel Klein, fundador das Casas Bahia. A expansão seguiu o modelo que dominou o comércio brasileiro por décadas, com muitos pontos físicos e venda parcelada, comum também às grandes lojas de departamentos.

Venda da participação, recuperação judicial e falência
Nunes vendeu sua participação na Ricardo Eletro numa operação concluída em 26 de dezembro de 2018, ano em que a rede tinha dívidas estimadas em R$ 2,6 bilhões. Em 2020, a companhia pediu recuperação judicial, mecanismo previsto na Lei 11.101/2005, que busca preservar a empresa, os empregos e os interesses dos credores.
No mesmo ano, o fundador foi preso temporariamente numa investigação do Ministério Público de Minas Gerais sobre supostas irregularidades tributárias e liberado no dia seguinte, depois de depor. Em julho de 2026, a Justiça de São Paulo voltou a decretar a falência de empresas do grupo, com passivo informado de cerca de R$ 5,3 bilhões. A crise das grandes redes de eletrônicos também se repetiu fora do Brasil, como mostra um caso americano.
O que é o Grupo R1, novo negócio do fundador da Ricardo Eletro?
O Grupo R1 é uma empresa de educação empresarial que oferece treinamentos, mentorias e consultoria a donos de pequenos e médios negócios. Ricardo Nunes comanda o grupo desde 2022, e a empresa tem 130 funcionários, segundo ele.

O programa principal, o Clube R1, reúne 560 empresas ativas, de acordo com o fundador. A porta de entrada é uma imersão de três dias em São Paulo, que recebe cerca de 300 novos empresários por mês. Depois vêm diagnóstico, plano de ação, mentorias e quatro encontros presenciais por ano.
Nunes afirma que a receita cresceu entre 80% e 100% ao ano desde 2021. A empresa, porém, não divulga o faturamento, e os números ainda não passaram por auditoria. O próprio dono define o negócio como “uma empresa pequena perto do que eu tinha”, agora com o empreendedorismo como produto central.
Por que Ricardo Nunes diz que não volta mais ao varejo?
O empresário diz que o setor mudou demais para justificar uma nova rede física. Ele aponta os juros altos, que encarecem o financiamento, e a concorrência dos marketplaces, que torna mais difícil sustentar grandes operações com lojas espalhadas pelo país.
Outro problema, segundo Nunes, é o descompasso de prazos: o lojista paga fornecedores em cerca de 70 dias, mas vende em dez parcelas sem juros. Para ele, a loja física só sobrevive combinada ao digital, focada na experiência do cliente. Ele cita grandes redes que recorreram à recuperação judicial, como Casas Bahia e Americanas, como sinal da pressão sobre o comércio.
Daqui para frente, vale acompanhar o andamento da falência das empresas que formavam a Ricardo Eletro e se o Grupo R1 passará a divulgar resultados auditados. Decisões e prazos do caso ficam na consulta de processos do Tribunal de Justiça de São Paulo, canal oficial para credores e ex-funcionários. Se você tem um negócio e pensa em contratar uma mentoria, compare propostas com calma e peça números verificáveis antes de fechar.
A queda de grandes nomes do comércio físico também marcou o mercado de luxo nos Estados Unidos. A história de uma loja de departamentos centenária ajuda a entender esse movimento.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)