A ilusão das pesquisas eleitorais
Não é o caso de dizer que as pesquisas estão erradas, mas não se pode encará-las da mesma forma após os resultados do primeiro turno
Os apoiadores de Lula celebram, com razão, a mobilização do segundo turno nas ruas e nas redes sociais. O medo da eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para presidente reenergizou a esquerda brasileira, que, aparentemente, segue sem enxergar motivos para defender o presidente petista, mas resolveu sair de casa para tentar impedir a volta da família Bolsonaro ao poder.
Esses lulistas apoiam sua confiança nas pesquisas eleitorais, em especial as da PoderData, que indicaram uma queda de seis pontos percentuais na distância de Flávio para Lula desde o fim do primeiro turno, sinalizando um empate em 50% dos votos válidos entre os dois.
É provável que essa pesquisa esteja correta — e não há qualquer motivo para desconfiar das intenções do instituto —, mas é preciso definir o que seria estar correto.
Outros institutos indicaram que há de fato uma onda favorável para Lula, pelo menos do ponto de vista anímico, mas isso não quer dizer que ela se manifestará na urna. A distância entre o resultado do primeiro turno e o que as pesquisas indicavam, aliás, não é animadora para os lulistas.
Eleitores que trocaram de lado
Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, foi o único que elaborou de forma mais clara uma tentativa de entender a surpresa das urnas no primeiro turno, já que poucas pesquisas davam Flávio à frente, apesar de boa parte delas poder alegar que o resultado ficou dentro da margem de erro.
“Uma análise ainda preliminar do que aconteceu aponta para um problema bastante complexo: uma subrepresentação sistemática de eleitores que trocaram de lado em relação ao voto passado”, disse Roman, elaborando sobre as estratégias do instituto para ponderar os números:
“AtlasIntel conta com diversas maneiras de tratar o viés de auto-seleção dos respondentes. Neste caso, no entato algumas questões dificultaram essa deteção: uma concentração deste padrão em cidades pequenas (Lula manteve sua votação nas grandes cidades) e entre eleitores mais pobres e com menos educação (a queda foi significativamente menor entre eleitores com ensino médio ou superior). Chama também atenção que não apenas as pesquisas online e telefônicas não conseguiram capturar bem esse fenômeno mas também as pesquisas presenciais. Uma tese também preliminar é que o eleitor que trocou de lado fez isso de uma forma silenciosa e sem muito entusiasmo, talvez em função da própria decisão de se arrepender do voto passado.“
A pesquisa CNT/MDA, que tinha apontado vitória de Lula no segundo turno por 47% a 43% na última pesquisa divulgada antes do primeiro turno, anunciou uma nova ponderação dos números ao divulgar sua primeira pesquisa deste segundo turno, que indicou 47% para Flávio e 46% para Lula.
“Todos os resultados deste relatório foram calculados com ponderação socioeconômica e pelo voto declarado no 1o turno de 2026, considerando, para o ajuste eleitoral, os entrevistados que declararam comparecimento, incluindo votos em candidatos, brancos e nulos”, informou o instituto.
Pontos de atenção
Há outros pontos de atenção, como o voto envergonhado dos bolsonaristas, que vem afetando as pesquisas em favor dos petistas desde 2018, e as abstenções, mais difíceis de medir e que tendem a afetar mais o eleitorado de Lula, mais pobre e com menos tendência a ir votar.
Diretor da Quaest, Felipe Nunes explicou por que o instituto só pública os resultados de sua pesquisa com os votos válidos, levando em conta a provável abstenção, na última pesquisa.
“A nossa visão continua sendo a mesma de sempre. Pesquisa mede intenção de voto para o total de eleitores aptos a votar, que é como a amostra é desenhada. Para estimar votos válidos é preciso descontar a abstenção, o que fazemos apenas na véspera, já com o modelo de likely voter. Pra ser coerente com a nossa filosofia, evitamos ao máximo a comparação pesquisa X urnas, que só estimula na cabeça das pessoas a ideia equivocada de que nosso objetivo é acertar o resultado numérico que sai do voto”, explicou Nunes em seu perfil no X.
Segundo ele, “não adianta defender que não é bola de cristal e estimular com as publicações que seja possível adivinhar os votos válidos”.
“Não estimulamos a divulgação dos válidos pela coerência com o que defendemos. Pelo entendimento das limitações que temos em projetar o futuro. E pela honestidade intelectual de saber que intenções de voto medidas hoje não são aproximáveis de votos válidos em 25/10”, concluiu.
Além disso, a mobilização dos eleitores de Lula pode interferir nas pesquisas, especialmente as online e por telefone, como as da AtlasIntel e da PoderData, por conta da disposição do eleitorado de participar delas — as intenções de voto para Renan Santos (Missão) no primeiro turno parecem ter sido distorcidas pela disposição da militância do MBL para participar das consultas.
Sinais
Em meio a todos esses elementos que dificultam a vida dos pesquisadores eleitorais, é preciso levar em conta outros sinais, além das pesquisas, para interpretar o que está ocorrendo na corrida eleitoral.
Lula segue com o mesmo comportamento desesperado do primeiro tudo, prometendo tudo o que pode e não pode, e chegou até a mudar de ideia sobre a redução da maioridade penal, contra posição histórica do PT, para tentar se proteger do troco da oposição pela aprovação do fim da escala 6×1.
Também chama a atenção a discrição dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e Flávio Dino no segundo turno, após a atuação de ambos a favor de Lula ter sido interpretada como parte da derrota colhida pelo petista no primeiro turno.
Contas
O fato é que Flávio terminou dois milhões de votos à frente de Lula, com 56,1 milhões a 53,8 milhões. Cerca de 9 milhões de eleitores escolheram algum outro candidato e cerca de 6 milhões votaram branco ou nulo. Outros 33 milhões de eleitores nem sequer foram votar.
Calcula-se que o filho 01 de Bolsonaro fique com a maioria dos votos dos outros candidatos mais relevantes, portanto restaria a Lula convencer seus potenciais eleitores que ficaram em casa (e eles existem) no primeiro turno a ir votar no segundo.
O Datafolha ouviu que 96% dos eleitores pretendem votar em 25 de outubro. No primeiro turno, a abstenção foi de 21,08%, pouco maior do que em 2022 (20,95%), 2018 (20,33%) e 2014 (19,39%).
Nessas últimas eleições, apenas em 2022 a abstenção caiu no segundo turno, e muito pouco, para 20,59%. O desafio da virada lulista é praticamente impossível, quase do tamanho do desafio dos institutos de pesquisa para adivinhar quem exatamente vai votar, independente do que diga.
Leia mais: Lula não vai enrolar os “CEOs de MEI”
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)