50 anos sem Juscelino Kubitschek: o que ficou?
O amor à liberdade de expressão e investigação não permite, porém, refugiar personalidades históricas sobre pedestais intocáveis
Por Antônio Claret Jr. * e Lucas Berlanza**
Domingo, 22 de agosto de 1976. Uma colisão de automóvel com uma carreta encerrava a biografia de um dos mais celebrados líderes políticos brasileiros. Após reiterados diagnósticos contrários, cinquenta anos depois, a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos sustenta que a morte de Juscelino Kubitschek de Oliveira não teria sido um acidente.
A verdade quanto ao que aconteceu naquele quilômetro 165 da rodovia presidente Dutra, seja qual for, não altera o significado de uma trajetória que marcou decisivamente a vida pública brasileira e já se estava convertendo em mito.
A passagem do mineiro de Diamantina pela Presidência do Brasil costuma ser associada a otimismo, anseio por grandeza e desenvolvimento e à materialização desses estados de espírito através da construção de uma nova capital para o Brasil, a cidade de Brasília.
Desafios das distâncias
Desde a juventude, como ilustramos em nosso livro “Juscelino: uma crítica ao desenvolvimentismo”, lançado este ano pela LVM Editora, a mentalidade de Juscelino foi moldada pela percepção do desafio das distâncias. Modernização, industrialização, urbanização e conexão do território foram as grandes bandeiras a que persistentemente se dedicou.
Criatura política do PSD mineiro do interventor Benedito Valadares e, consequentemente, do autoritarismo varguista, mas, ao mesmo tempo, uma liderança carismática que se tornou maior do que seus criadores e se impôs a eles, o presidente “Bossa Nova” – alcunha que recebeu na clássica canção de Juca Chaves em razão da emergência deste gênero musical à época de seu governo e aos ares de jovialidade e renovação que oferecia aos eleitores – se tornou um fenômeno de popularidade.
Talvez apenas depois do próprio Vargas no quesito “consagração na memória popular”, Juscelino é campeão em citações de políticos contemporâneos que buscam uma inspiração no passado nacional.
“Tocador de obras”
A imagem de “tocador de obras”, realizador de grandes empreendimentos, impulsionador do parque industrial, plenamente ajustada às suas afinidades com a ideologia nacional-desenvolvimentista, prossegue imperante. Depois de cinco décadas, cabe refletir de maneira mais cuidadosa sobre o que restou de seu legado.
O objetivo de empreender uma análise crítica não é transformar Juscelino no maior vilão da história do Brasil. Ele deve ser compreendido em seu contexto, que era de uma ascensão global do estatismo e do intervencionismo, mesmo nas democracias ocidentais.
Em comparação com os nacionalismos mais radicais, hostis à contribuição do capital estrangeiro para o desenvolvimento socioeconômico, ele representou um progresso. Também, ainda que com muitos senões, teve gestos de conformidade com a democracia, tendo dito que era como democrata que principalmente gostaria de ser lembrado.
O custo
O amor à liberdade de expressão e investigação não permite, porém, refugiar personalidades históricas sobre pedestais intocáveis. O objetivo de industrializar e urbanizar aceleradamente o país foi atingido, mas de maneira regionalmente desigual e desequilibrada.
O custo, que, para Juscelino, deveria provir da criatividade do governante dedicado, mesmo sem haver dinheiro em caixa, foi dependência, inflação e endividamento.
A cultura do capitalismo de compadrio, com o atrelamento por vezes corrupto entre seleto número de empresas e o Estado, se enraizou, gestando muitos males com que as gerações mais recentes ainda se defrontam. Brasília segue de pé, mas jamais se tornou o dinâmico polo autossustentável com que Juscelino sonhou, seguindo a depender de subsídios.
Reconhecer méritos, carisma e audácia a Juscelino não pode significar insistir na crença de que o modelo desenvolvimentista é o caminho da prosperidade nacional.
Cinco décadas depois do desaparecimento de um de seus líderes mais icônicos, esse modelo, cujos receituários têm sido tantas vezes experimentados, não conseguiu transformar o Brasil em um país desenvolvido, como sugeriria o seu nome.
* Antônio Claret Jr. é advogado, com especialização em gestão de Negócios, direito tributário e finanças. É ex-vice-presidente do Instituto Liberal.
**Lucas Berlanza é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela UFRJ, colunista e presidente da Diretoria Executiva do Instituto Liberal, que integra desde 2014, e sócio honorário do Instituto Libercracia.
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Comentários (1)
Joaquim Duran
02.10.2026 12:58Coletivo de ratos = Brasília