Restaurar florestas de algas não acompanha a velocidade das perdas e pesquisadores alertam contra atalho climático
Análise mostra que perdas de kelp associadas ao clima superam amplamente os ganhos atuais obtidos com restauração
As florestas de algas estão perdendo terreno para o aquecimento dos oceanos muito mais depressa do que projetos humanos conseguem recuperá-las. Em um ensaio publicado em setembro de 2026 na PLOS Biology, pesquisadores estimaram que a redução dos benefícios climáticos causada pelo declínio dessas comunidades pode superar os ganhos obtidos com restauração, cultivo e outras intervenções em três a quatro ordens de magnitude, ou cerca de 1.000 a 10.000 vezes.
Por que as florestas de algas estão perdendo espaço tão rapidamente?
O trabalho foi assinado por Karen Filbee-Dexter, Albert Pessarrodona, Kira A. Krumhansl e Thomas Wernberg. Os autores analisaram dados sobre declínio de kelps, restauração e circulação de carbono para comparar a escala das perdas naturais com a capacidade atual de intervenções humanas.
Registros de longo prazo indicam declínio em cerca de 60% das séries temporais avaliadas de florestas de kelp, enquanto aproximadamente 5% mostraram aumento. Uma estimativa global usada pelos autores aponta queda média de 1,8% ao ano na abundância, embora existam grandes incertezas porque extensas regiões costeiras permanecem pouco mapeadas ou monitoradas.
Por que restaurar áreas degradadas não basta para compensar as perdas?
Segundo a análise, uma estimativa otimista reúne aproximadamente 4.200 hectares de kelp selvagem restaurados com sucesso desde 1958. Em contraste, mantendo determinadas projeções utilizadas pelos pesquisadores, a área perdida até 2050 poderia alcançar dezenas de milhões de hectares.
Os autores não argumentam que a restauração seja inútil. Ela pode recuperar biodiversidade, habitat, funções costeiras e benefícios sociais. O problema surge quando esses projetos são apresentados como uma forma de remoção de dióxido de carbono capaz de compensar emissões em grande escala.
- Restaurar habitats degradados;
- Reduzir pressões locais;
- Proteger áreas ainda intactas;
- Identificar refúgios climáticos;
- Reduzir emissões de gases de efeito estufa.
Este vídeo mostra um projeto apoiado pela NOAA para recuperação de kelp na Califórnia:
Quanto as florestas de algas podem perder em capacidade climática?
Usando uma área global estimada de 641.224 quilômetros quadrados para florestas de kelp e a taxa anual de declínio de 1,8%, os autores calcularam uma perda equivalente a aproximadamente 11.542 quilômetros quadrados em um ano. Esses números são estimativas globais e dependem diretamente das premissas adotadas.
O estudo também avaliou diferentes componentes do ciclo do carbono, incluindo biomassa, exportação de carbono orgânico particulado e produção de carbono orgânico dissolvido refratário. O aquecimento pode ainda acelerar decomposição e fragmentação, reduzindo a parcela de carbono que alcança reservatórios oceânicos mais duradouros.
O que o estudo diz sobre usar algas como solução climática?
O argumento central não é que algas não participem do ciclo do carbono. Ao contrário, esses ecossistemas altamente produtivos absorvem carbono durante seu crescimento e parte desse material pode ser transportada para sedimentos ou águas profundas, embora a quantidade efetivamente sequestrada por períodos climaticamente relevantes ainda carregue incertezas.
No artigo original publicado na PLOS Biology, os pesquisadores alertam principalmente contra a expectativa de que restauração, reflorestamento marinho ou cultivo de algas forneçam remoção de CO₂ na escala necessária para contrabalançar emissões crescentes. Essa possibilidade não substitui cortes diretos de gases de efeito estufa.

Por que conservar florestas de algas existentes ganha prioridade?
Evitar a degradação preserva funções que já estão operando e pode ser mais eficiente do que tentar reconstruí-las depois do colapso. Segundo o estudo, projetos de restauração de kelp podem custar aproximadamente US$ 10 mil a US$ 707 mil por hectare, dependendo do contexto e da técnica empregada.
Os autores defendem uma hierarquia de ações: primeiro reduzir os fatores responsáveis pela degradação e proteger habitats funcionais; depois favorecer recuperação passiva; somente quando isso não funcionar recorrer a intervenções como transplante, semeadura ou controle de herbívoros.
| Indicador | Estimativa citada |
|---|---|
| Área global de kelp | 641.224 km² |
| Declínio anual estimado | 1,8% |
| Kelp restaurado desde 1958 | Cerca de 4.200 ha |
| Diferença entre perdas e ganhos | 3 a 4 ordens de magnitude |
Que papel a restauração ainda pode desempenhar?
Projetos locais continuam importantes. Os autores destacam que recuperar kelp pode favorecer biodiversidade, pesca, qualidade ambiental e atividades culturais, além de aproximar comunidades da conservação marinha. Cultivar algas também pode fornecer alimentos e materiais com impactos ambientais relativamente baixos em determinados sistemas.
A advertência se refere à escala climática atribuída a essas iniciativas. Proteger ecossistemas existentes, controlar fatores locais de degradação e restaurar áreas adequadas são medidas complementares, mas nenhuma elimina a necessidade de reduzir rapidamente as emissões responsáveis pelo aquecimento dos oceanos.
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